
O cansaço era visível. Tinha estado toda a semana a trabalhar e assim iria continuar. Os braços doíam-lhe, as pernas também sem falar na coluna. O dia tinha sido puxado, são todos, no entanto hoje, devido à folga da sua colega, os “serviços mínimos” tiveram de ser assegurados. Sendo a mais nova nesta unidade hospitalar de Lisboa, iria passar parte da noite de natal sozinha e a trabalhar.
Na terra onde nasceu e cresceu já há muito que a massa para as filhós estava pronta para a fritura e os sonhos já boiavam no enorme tacho de azeite quente à lareira em cima dos trempos. Estes ao sentirem que a massa já se encontra frita por um lado voltam-se sozinhos fazendo-a lembrar o verão, a praia cheia de gente que deitada na toalha se vira de acordo com a intensidade do calor. Toda a aldeia estava embebida de um inequívoco cheiro de iguarias regionais. Cada fogo possui a sua própria receita que para o comum dos visitantes é indecifrável no entanto são diferentes, e bem diferentes. Ao longo do ano pelo concelho daquela região do interior decorrem várias feiras que promovem esta gastronomia e há vários povoados de renome na sua confecção. Também o jantar já se encontrava pronto há algum tempo, cozido ao lume o tradicional bacalhau e as couves do quintal com batatas cozidas.
“… lamentamos informar que devido a falha eléctrica o comboio encontra-se 15 minutos atrasado…” as pessoa que se encontravam sentadas no abrigo, suspiraram incomodadas enquanto enroscavam as mãos bem no fundo no bolso dos casacos e escondiam o queijo no cachecol. O vento soprava agora com mais intensidade empurrando a chuva que se entranhava em todo o lado. Os guarda-chuvas eram impotentes. Mais uma vez Maria procurou a melhor posição junto do abrigo para se defender da chuva e do vento frio enquanto tentava controlar o pequeno guarda-chuva que já dava mostras de não resistir por muito tempo. Também suspirou. Os quinze minutos de atraso anunciados passaram agora para vinte, e os suspiros sucediam-se cada vez mais profundos, alguns já de raiva outros de lamentação e até os houve seguidos de algum praguejar.
A estação encontrava-se praticamente deserta. Com o adiantado da hora na rua não se via vivalma, apenas alguns carros seguiam calmamente o seu caminho. A inquetude apoderava-se de quem esperava pelo comboio e de cinco em cinco minutos a voz insípida que ecoava pelo altifalante, anunciava mais atrasos. Tirou a mão do bolso juntamente com o pequeno telemóvel e premindo um botão o ecrâ iluminou-se e viu as horas, eram já dez e meia da noite e ainda se encontrava longe de casa. Lembrou-se que teria de se levantar às seis e meia da manhã para iniciar regressar ao trabalho, teve vontade de chorar. Reparou que tinha 1 chamada não atendido, era dos seus pais, tentaram contatá-la à duas horas atrás. Retribuiu a chamada mas entretanto chegou o comboio e o barulho ensudecedor que o acompanhava levaram-na a desligar e a prometer que ligaria mais tarde. Entrou na carruagem praticamente vazia e sentou-se junto à janela. À sua frente ia sentado um jovem casal que se acarinhava e beijava como se o mundo fosse todo deles, como se estissem isolados do mundo sem ninguém a quem prestar contas. Virou-se para a janela encontando a cabeça e fechou os olhos.
Recordou a sua infância. Como brincava com o seus amigos da aldeia. Em pequena era parecida com os rapazes, gostava de jogar à bola de correr, de pular, de subir às árvores e de estar com eles. Até o seu cabelo tinha um corte masculino. Era apelidada de Maria Rapaz e não se importava. Era assim que gostava de ser. Nas tardes de natal adorava ir com os amigos à lenha para a fogueira que iria aquecer os pés ao menino Jesus mesmo à porta da Capela. Tiravam a carroça de varais da cabana, percorriam o bardo sem fazer barulho e saíam pelo portão sem que o avô se apercebesse. Percorriam distâncias loucas, pelas encostas acima e pelas encostas abaixo, em busca de cepas secas esquecida nos terrenos vizinhos, nos pinhais ou no mato. Só os mais pequenos à guarda dos irmãos mais velhos é que iam em cima da carroça, todos os outros faziam-na deslocar. Não havia nem burro nem macho nestas ocasiões. Uma vez carregada era despejada em monte junto à porta da Capela e ateada com a ajuda de carquejas e pinhas secas. Esta cerimónia era a mais esperada, a noite já avançava e o frio também já era muito quando ateavam a fogueira que os aquecia a todos dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Mas de um dia para o outro tudo mudou. A sua percepção do Mundo alterou-se radicalmente e as brincadeiras que outrora eram indispensaveis agora eram insuportáveis. Maria tornara-se mulher.
Deixou cair em cima dos pés o guarda-chuva que tinha na mão, abriu os olhos sobressaltada e reparou que tinha chegado ao destino. Pegou nas suas coisas e saiu ainda meio zonza pelo sono. Continuava a chover. O vento era agora mais impiedoso, ao tentar abrir o guarda-chuva sentiu-o quebrar e voar ao longo da linha fugindo da sua dona. Desesperada levantou a cabeça em direcção ao céu e sentiu a chuva fria a cair-lhe no rosto. Baixou o olhar, aconchegou o casaco junto ao pescoço e seguiu decidida em direcção a casa.
Entrou em casa toda ensopada e a tremer de frio. Não sentiu o aconchego quentinho do lar pois a casa era bastante húmida, fria e vivia sozinha. Correu para a casa de banho, tirou as roupas completamente encharcadas de água e começou a tremer ainda mais. Ligou o ventilador no máximo e colocou-se à frente do ar quente que vinha do pequeno aparelho. Os seus lábios carnudos moviam-se sem que ela os estivesse a controlar e tentava aquecer o corpo com os braços cruzados, mas não estava a dar resultado. Ligou a torneira da água quente do duche e entrou na banheira. Encolhida sentia a água quente a bater-lhe nas costas e na cabeça, parecia um punhal que lhe era cravado no corpo, até que começou a aquecer e a habituar-se. Ao fim de alguns minutos já se sentia melhor mas as suas pernas não tinha reacção para deixar o chuveiro. Juntou a pouca coragem que lhe restava, fechou a torneira, envolveu-se na toalha e correu em direcção ao quarto. Rapidamente vestiu o pijama polar que concordou ter sido uma das maiores invenções até ao momento.
Através das paredes conseguia ouvir as vozes dos vizinhos e de mais gente que deveriam ser familiares, riam, riam e falavam alto e tornavam a rir mais um pouco. A festa estava animada. Baixou o olhar e lembrou-se de ligar para casa para falar com os pais. Pegou no telemóvel que apenas se encontrava molhado por fora e reparou que tinham tentado ligar de casa, retribuiu a chamada. O telefone tocou, tocou, tocou e nada ninguém atendia. Lembrou-se de ligar para o telemóvel do pai que desde que o comprara passara a ser o seu melhor amigo, mas nada. Em casa não havia rede, a algazarra era total. Os sobrinhos que há bem pouco tempo tinham aprendido a falar moviam-se freneticamente pela casa e o sossego era palavra desconhecida. Já tinha sido o substantivo mais identificativo deste lar, mas agora estava repleto de vida. De vida que se encontrava irrequieta, na cozinha junto à lareira, com medo de adormecer e não poder, desta forma, abrir os presentes. O barulho impedia que alguém a ouvisse. Tentou mais uma vez o telefone e nada. Estava só.
Estava cansada, triste e só na noite de natal. No dia seguinte, antes do sol se levantar tinha de se levantar para ir trabalhar. Sentia-se tão vazia que uma pequena lágrima surgiu da fonte dos seus olhos azuis e jorrou pela sua bochecha macia, a seguir outra … e outra. Deitou-se na cama tapou-se e escondeu-se debaixo das mantas como que para evitar que os seres ausentes não a vissem a descarregar toda a água armazenada no saco lacrimal.
Por entre este estado de abatimento e submissão ouviu o telemóvel vibrar em cima da mesa-de-cabeceira. Um SMS tinha acabado de entrar na sua caixa de mensagens. Recompôs-se um pouco, lutando contra parte do seu corpo que se sentia vencido e pegou no telemóvel. Limpou a cara com as mangas da camisola do pijama e abriu a mensagem. De repente os seus olhos começaram a brilhar, o seu rosto rejuvenesceu-a e esboçou um sorriso confidente. Apenas cinco pequenas letras foram suficientes para a transfigurar. “Amo-te”. Retribuiu a mensagem a alguém e deitou-se agora em paz e sossego. Lá fora as estrelas brilhavam agora com maior intensidade.

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