terça-feira, 29 de dezembro de 2009

mais uma noite…


Maria encontrava-se encostada ao abrigo na paragem do comboio. Do lado de fora, é claro, àquela hora já todos os lugares de repouso se encontravam ocupados. Por um lado não se importava, pois assim poderia ir movimentando os pés para não os deixar arrefecer ainda mais, no entanto a chuva e o vento eram mesmo um enorme empecilho e mesmo que se encontra-se seca por dentro o ar frio que lhe entrava pelas extremidades do casaco, faziam-na sentir mais húmida que uma bola de neve.

O cansaço era visível. Tinha estado toda a semana a trabalhar e assim iria continuar. Os braços doíam-lhe, as pernas também sem falar na coluna. O dia tinha sido puxado, são todos, no entanto hoje, devido à folga da sua colega, os “serviços mínimos” tiveram de ser assegurados. Sendo a mais nova nesta unidade hospitalar de Lisboa, iria passar parte da noite de natal sozinha e a trabalhar.

Na terra onde nasceu e cresceu já há muito que a massa para as filhós estava pronta para a fritura e os sonhos já boiavam no enorme tacho de azeite quente à lareira em cima dos trempos. Estes ao sentirem que a massa já se encontra frita por um lado voltam-se sozinhos fazendo-a lembrar o verão, a praia cheia de gente que deitada na toalha se vira de acordo com a intensidade do calor. Toda a aldeia estava embebida de um inequívoco cheiro de iguarias regionais. Cada fogo possui a sua própria receita que para o comum dos visitantes é indecifrável no entanto são diferentes, e bem diferentes. Ao longo do ano pelo concelho daquela região do interior decorrem várias feiras que promovem esta gastronomia e há vários povoados de renome na sua confecção. Também o jantar já se encontrava pronto há algum tempo, cozido ao lume o tradicional bacalhau e as couves do quintal com batatas cozidas.

“… lamentamos informar que devido a falha eléctrica o comboio encontra-se 15 minutos atrasado…” as pessoa que se encontravam sentadas no abrigo, suspiraram incomodadas enquanto enroscavam as mãos bem no fundo no bolso dos casacos e escondiam o queijo no cachecol. O vento soprava agora com mais intensidade empurrando a chuva que se entranhava em todo o lado. Os guarda-chuvas eram impotentes. Mais uma vez Maria procurou a melhor posição junto do abrigo para se defender da chuva e do vento frio enquanto tentava controlar o pequeno guarda-chuva que já dava mostras de não resistir por muito tempo. Também suspirou. Os quinze minutos de atraso anunciados passaram agora para vinte, e os suspiros sucediam-se cada vez mais profundos, alguns já de raiva outros de lamentação e até os houve seguidos de algum praguejar.

A estação encontrava-se praticamente deserta. Com o adiantado da hora na rua não se via vivalma, apenas alguns carros seguiam calmamente o seu caminho. A inquetude apoderava-se de quem esperava pelo comboio e de cinco em cinco minutos a voz insípida que ecoava pelo altifalante, anunciava mais atrasos. Tirou a mão do bolso juntamente com o pequeno telemóvel e premindo um botão o ecrâ iluminou-se e viu as horas, eram já dez e meia da noite e ainda se encontrava longe de casa. Lembrou-se que teria de se levantar às seis e meia da manhã para iniciar regressar ao trabalho, teve vontade de chorar. Reparou que tinha 1 chamada não atendido, era dos seus pais, tentaram contatá-la à duas horas atrás. Retribuiu a chamada mas entretanto chegou o comboio e o barulho ensudecedor que o acompanhava levaram-na a desligar e a prometer que ligaria mais tarde. Entrou na carruagem praticamente vazia e sentou-se junto à janela. À sua frente ia sentado um jovem casal que se acarinhava e beijava como se o mundo fosse todo deles, como se estissem isolados do mundo sem ninguém a quem prestar contas. Virou-se para a janela encontando a cabeça e fechou os olhos.

Recordou a sua infância. Como brincava com o seus amigos da aldeia. Em pequena era parecida com os rapazes, gostava de jogar à bola de correr, de pular, de subir às árvores e de estar com eles. Até o seu cabelo tinha um corte masculino. Era apelidada de Maria Rapaz e não se importava. Era assim que gostava de ser. Nas tardes de natal adorava ir com os amigos à lenha para a fogueira que iria aquecer os pés ao menino Jesus mesmo à porta da Capela. Tiravam a carroça de varais da cabana, percorriam o bardo sem fazer barulho e saíam pelo portão sem que o avô se apercebesse. Percorriam distâncias loucas, pelas encostas acima e pelas encostas abaixo, em busca de cepas secas esquecida nos terrenos vizinhos, nos pinhais ou no mato. Só os mais pequenos à guarda dos irmãos mais velhos é que iam em cima da carroça, todos os outros faziam-na deslocar. Não havia nem burro nem macho nestas ocasiões. Uma vez carregada era despejada em monte junto à porta da Capela e ateada com a ajuda de carquejas e pinhas secas. Esta cerimónia era a mais esperada, a noite já avançava e o frio também já era muito quando ateavam a fogueira que os aquecia a todos dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Mas de um dia para o outro tudo mudou. A sua percepção do Mundo alterou-se radicalmente e as brincadeiras que outrora eram indispensaveis agora eram insuportáveis. Maria tornara-se mulher.

Deixou cair em cima dos pés o guarda-chuva que tinha na mão, abriu os olhos sobressaltada e reparou que tinha chegado ao destino. Pegou nas suas coisas e saiu ainda meio zonza pelo sono. Continuava a chover. O vento era agora mais impiedoso, ao tentar abrir o guarda-chuva sentiu-o quebrar e voar ao longo da linha fugindo da sua dona. Desesperada levantou a cabeça em direcção ao céu e sentiu a chuva fria a cair-lhe no rosto. Baixou o olhar, aconchegou o casaco junto ao pescoço e seguiu decidida em direcção a casa.

Entrou em casa toda ensopada e a tremer de frio. Não sentiu o aconchego quentinho do lar pois a casa era bastante húmida, fria e vivia sozinha. Correu para a casa de banho, tirou as roupas completamente encharcadas de água e começou a tremer ainda mais. Ligou o ventilador no máximo e colocou-se à frente do ar quente que vinha do pequeno aparelho. Os seus lábios carnudos moviam-se sem que ela os estivesse a controlar e tentava aquecer o corpo com os braços cruzados, mas não estava a dar resultado. Ligou a torneira da água quente do duche e entrou na banheira. Encolhida sentia a água quente a bater-lhe nas costas e na cabeça, parecia um punhal que lhe era cravado no corpo, até que começou a aquecer e a habituar-se. Ao fim de alguns minutos já se sentia melhor mas as suas pernas não tinha reacção para deixar o chuveiro. Juntou a pouca coragem que lhe restava, fechou a torneira, envolveu-se na toalha e correu em direcção ao quarto. Rapidamente vestiu o pijama polar que concordou ter sido uma das maiores invenções até ao momento.

Através das paredes conseguia ouvir as vozes dos vizinhos e de mais gente que deveriam ser familiares, riam, riam e falavam alto e tornavam a rir mais um pouco. A festa estava animada. Baixou o olhar e lembrou-se de ligar para casa para falar com os pais. Pegou no telemóvel que apenas se encontrava molhado por fora e reparou que tinham tentado ligar de casa, retribuiu a chamada. O telefone tocou, tocou, tocou e nada ninguém atendia. Lembrou-se de ligar para o telemóvel do pai que desde que o comprara passara a ser o seu melhor amigo, mas nada. Em casa não havia rede, a algazarra era total. Os sobrinhos que há bem pouco tempo tinham aprendido a falar moviam-se freneticamente pela casa e o sossego era palavra desconhecida. Já tinha sido o substantivo mais identificativo deste lar, mas agora estava repleto de vida. De vida que se encontrava irrequieta, na cozinha junto à lareira, com medo de adormecer e não poder, desta forma, abrir os presentes. O barulho impedia que alguém a ouvisse. Tentou mais uma vez o telefone e nada. Estava só.

Estava cansada, triste e só na noite de natal. No dia seguinte, antes do sol se levantar tinha de se levantar para ir trabalhar. Sentia-se tão vazia que uma pequena lágrima surgiu da fonte dos seus olhos azuis e jorrou pela sua bochecha macia, a seguir outra … e outra. Deitou-se na cama tapou-se e escondeu-se debaixo das mantas como que para evitar que os seres ausentes não a vissem a descarregar toda a água armazenada no saco lacrimal.

Por entre este estado de abatimento e submissão ouviu o telemóvel vibrar em cima da mesa-de-cabeceira. Um SMS tinha acabado de entrar na sua caixa de mensagens. Recompôs-se um pouco, lutando contra parte do seu corpo que se sentia vencido e pegou no telemóvel. Limpou a cara com as mangas da camisola do pijama e abriu a mensagem. De repente os seus olhos começaram a brilhar, o seu rosto rejuvenesceu-a e esboçou um sorriso confidente. Apenas cinco pequenas letras foram suficientes para a transfigurar. “Amo-te”. Retribuiu a mensagem a alguém e deitou-se agora em paz e sossego. Lá fora as estrelas brilhavam agora com maior intensidade.

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