sexta-feira, 13 de março de 2009

Unplugged!




Temos muito que aprender! Lembro-me de uma frase que ouvi vezes sem conta quando era seminarista no seminário das Missões na pequena vila de Cernache do Bonjardim: "O Saber não ocupa lugar". Confesso que não tenho sido fiel a esta máxima! Desinteresso-me por vários temas e assuntos! Gosto de acreditar que a razão principal é a de ser realista! Sei que por mais que me esforce nunca conseguirei dominar todas as áreas do saber, mesmo que sejam apenas pequenos pormenores… fascina-me o mundo da informática, da gestão, da saúde… mas quando me falam em programação, equações, fármacos… o meu cérebro começa a ficar inquieto, nervoso, impaciente e apenas quero desligar o interruptor!

A Princesa dos Mares

Foi naquele dia que tudo aconteceu. Era tarde, o sol já se tinha deitado por trás do horizonte aconchegado pelo mar azul. As ruas estavam desertas, a praia também. A areia já não queimava os pés descalços nem o vento dificultava a respiração como durante o dia, altura em que o astro rei reinava sobre todo o universo.

Não houve testemunhas que pudessem relatar os factos acontecidos, que espalhassem o acontecimento ao vento, que impedissem que este momento se tornasse num segredo. No seu grande segredo! Mas havia testemunhas! Sim havia testemunhas silenciosas, e muitas… em cada recanto havia espectadores, em cada duna havia quem esperasse por aquele momento, vinham de todo o lado, muitos surgiam do nada! Apareciam de debaixo das pedras, da areia, do mar e do ar…

Moveu-se para a direita para encontrar a melhor posição para vislumbrar o grande momento, o momento por que todos esperavam. Era já quase como que uma rotina! Em dias de maré baixa, naquele recanto da praia algo acontecia que só eles percebiam. Só eles adoravam aquele momento, era o seu totem!

E heis que empurrada pelas ondas da noite inicia o espectáculo! As antenas tateantes utilizadas vezes sem conta para fazer o reconhecimento do percurso param para este momento, as aves que ficaram acordadas até mais tarde fora do seu peloiro e que aproveitavam para cear pararam tudo para assistir ao momento, também os pequenos e os grandes caranguejos a fitaram com se fosse a primeira vez.

Era a princesa dos mares que Nemo enviava deslizando agora pela areia, para aquela praia. As suas formas deliciavam todos os presentes, ninguém se mexia nem fazia barulho temendo sua alteza se assustasse e desaparecesse pelo imenso azul. Apetecia-lhe chegar-se junto dela e tocar-lhe. Talvez esse pequeno gesto o transformasse num semelhante dela ou a ela num seu semelhante, mas ao olhar para os seus longos tentáculos baixou a cabeça e suspirou!

A princesa com as suas formas límpidas e perfeitas manteve-se com o dorso virado para a areia numa das suas inocentes poses sensuais com o olhar no universo! Parecia contar as estrelas, ou então memorizava-as, ou mesmo ainda comunicava com elas. Ningém sabe, mas algo de mágico se passava e era isso que a mantinha durante muito tempo naquele lugar, naquela posição, na areia e na noite. Até que, por fim, se levantou leve e como que absolvida dos seus pecados se dirigiu para as ondas e pouco a pouco os seus contornos de perdição foram desaparecendo envolvidos pela água e pelo sal. Lá longe, com a ajuda da cauda já em escamas, desapareceu e por último os seus longos cabelos loiros!

A praia ficou suspensa num último suspiro!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O País das Lamentações!




Era uma vez um país à beira mar platando. Um país onde todos vivem a sua vida. Onde todos possuem um espaço que podem chamar de seu, pelo menos enquanto as instituições de crédito não reclamarem o que lhes pertence e que foi ganho arduamente. Rico em vontade e em inteligência. Todos sabem o que é melhor para o outro, assim como que uma espécie de tentativa de subjugação...

Além das inúmeras qualidades dos seres deste país há uma que é hunânime. É a da lamentação! Um bom e digno habitante deste país tem de saber lamentar-se, não essa lamentação tipo lamechas que ninguém liga mas uma lamentação que enche o olho. Que leve o outro a lamentar-se da nossa própria lamentação! Que o sensibilize ao ponto de lacrimejar. O mais engraçado é que essa lamentação cresce em proporção do respectivo poder. Só desta forma se consegue compreender como é que os afortunados estão cada vez mais afortunados!

O dia das lamentações começa bem cedo, ainda em sonhos! "Como é que foi possível aos Inspectores da Segurança e Higiéne no Trabalho passarem pela minha empresa a uma hora em que não estava para os receber?". Ao levantar, "como é que é possível eu ter de levar os miúdos à escola se tenho muito para fazer?", "como é que um empregado só fez isto se está provado que este trabalho se faz em muito menos tempo?", como é que o governo nos taxa a nós se somos nós que pomos este país a andar para a frente?", "como é que… como é que…"

Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção!

Palavras lançadas ao Vento!



Palavras que não vejo, palavras que não ouço, palavras que não alcanço. Tudo são palavras… a terra, a areia, a casa, o amor, a morte são palavras antes de tudo. Têm peso, quando são arremessadas sem pensar, pois não estamos à espera, e dóem… sim… dóem como se fossem pedras! Não deixam vestígios à flôr da pele mas sangram como rios que descem das montanhas em direcção ao mar. As outras são leves, não ferem, suscitam talvez alguma sensibilidade mas são quase sempre lançadas ao vento!