Foi naquele dia que tudo aconteceu. Era tarde, o sol já se tinha deitado por trás do horizonte aconchegado pelo mar azul. As ruas estavam desertas, a praia também. A areia já não queimava os pés descalços nem o vento dificultava a respiração como durante o dia, altura em que o astro rei reinava sobre todo o universo.
Não houve testemunhas que pudessem relatar os factos acontecidos, que espalhassem o acontecimento ao vento, que impedissem que este momento se tornasse num segredo. No seu grande segredo! Mas havia testemunhas! Sim havia testemunhas silenciosas, e muitas… em cada recanto havia espectadores, em cada duna havia quem esperasse por aquele momento, vinham de todo o lado, muitos surgiam do nada! Apareciam de debaixo das pedras, da areia, do mar e do ar…
Moveu-se para a direita para encontrar a melhor posição para vislumbrar o grande momento, o momento por que todos esperavam. Era já quase como que uma rotina! Em dias de maré baixa, naquele recanto da praia algo acontecia que só eles percebiam. Só eles adoravam aquele momento, era o seu totem!
E heis que empurrada pelas ondas da noite inicia o espectáculo! As antenas tateantes utilizadas vezes sem conta para fazer o reconhecimento do percurso param para este momento, as aves que ficaram acordadas até mais tarde fora do seu peloiro e que aproveitavam para cear pararam tudo para assistir ao momento, também os pequenos e os grandes caranguejos a fitaram com se fosse a primeira vez.
Era a princesa dos mares que Nemo enviava deslizando agora pela areia, para aquela praia. As suas formas deliciavam todos os presentes, ninguém se mexia nem fazia barulho temendo sua alteza se assustasse e desaparecesse pelo imenso azul. Apetecia-lhe chegar-se junto dela e tocar-lhe. Talvez esse pequeno gesto o transformasse num semelhante dela ou a ela num seu semelhante, mas ao olhar para os seus longos tentáculos baixou a cabeça e suspirou!
A princesa com as suas formas límpidas e perfeitas manteve-se com o dorso virado para a areia numa das suas inocentes poses sensuais com o olhar no universo! Parecia contar as estrelas, ou então memorizava-as, ou mesmo ainda comunicava com elas. Ningém sabe, mas algo de mágico se passava e era isso que a mantinha durante muito tempo naquele lugar, naquela posição, na areia e na noite. Até que, por fim, se levantou leve e como que absolvida dos seus pecados se dirigiu para as ondas e pouco a pouco os seus contornos de perdição foram desaparecendo envolvidos pela água e pelo sal. Lá longe, com a ajuda da cauda já em escamas, desapareceu e por último os seus longos cabelos loiros!
A praia ficou suspensa num último suspiro!