terça-feira, 29 de dezembro de 2009

mais uma noite…


Maria encontrava-se encostada ao abrigo na paragem do comboio. Do lado de fora, é claro, àquela hora já todos os lugares de repouso se encontravam ocupados. Por um lado não se importava, pois assim poderia ir movimentando os pés para não os deixar arrefecer ainda mais, no entanto a chuva e o vento eram mesmo um enorme empecilho e mesmo que se encontra-se seca por dentro o ar frio que lhe entrava pelas extremidades do casaco, faziam-na sentir mais húmida que uma bola de neve.

O cansaço era visível. Tinha estado toda a semana a trabalhar e assim iria continuar. Os braços doíam-lhe, as pernas também sem falar na coluna. O dia tinha sido puxado, são todos, no entanto hoje, devido à folga da sua colega, os “serviços mínimos” tiveram de ser assegurados. Sendo a mais nova nesta unidade hospitalar de Lisboa, iria passar parte da noite de natal sozinha e a trabalhar.

Na terra onde nasceu e cresceu já há muito que a massa para as filhós estava pronta para a fritura e os sonhos já boiavam no enorme tacho de azeite quente à lareira em cima dos trempos. Estes ao sentirem que a massa já se encontra frita por um lado voltam-se sozinhos fazendo-a lembrar o verão, a praia cheia de gente que deitada na toalha se vira de acordo com a intensidade do calor. Toda a aldeia estava embebida de um inequívoco cheiro de iguarias regionais. Cada fogo possui a sua própria receita que para o comum dos visitantes é indecifrável no entanto são diferentes, e bem diferentes. Ao longo do ano pelo concelho daquela região do interior decorrem várias feiras que promovem esta gastronomia e há vários povoados de renome na sua confecção. Também o jantar já se encontrava pronto há algum tempo, cozido ao lume o tradicional bacalhau e as couves do quintal com batatas cozidas.

“… lamentamos informar que devido a falha eléctrica o comboio encontra-se 15 minutos atrasado…” as pessoa que se encontravam sentadas no abrigo, suspiraram incomodadas enquanto enroscavam as mãos bem no fundo no bolso dos casacos e escondiam o queijo no cachecol. O vento soprava agora com mais intensidade empurrando a chuva que se entranhava em todo o lado. Os guarda-chuvas eram impotentes. Mais uma vez Maria procurou a melhor posição junto do abrigo para se defender da chuva e do vento frio enquanto tentava controlar o pequeno guarda-chuva que já dava mostras de não resistir por muito tempo. Também suspirou. Os quinze minutos de atraso anunciados passaram agora para vinte, e os suspiros sucediam-se cada vez mais profundos, alguns já de raiva outros de lamentação e até os houve seguidos de algum praguejar.

A estação encontrava-se praticamente deserta. Com o adiantado da hora na rua não se via vivalma, apenas alguns carros seguiam calmamente o seu caminho. A inquetude apoderava-se de quem esperava pelo comboio e de cinco em cinco minutos a voz insípida que ecoava pelo altifalante, anunciava mais atrasos. Tirou a mão do bolso juntamente com o pequeno telemóvel e premindo um botão o ecrâ iluminou-se e viu as horas, eram já dez e meia da noite e ainda se encontrava longe de casa. Lembrou-se que teria de se levantar às seis e meia da manhã para iniciar regressar ao trabalho, teve vontade de chorar. Reparou que tinha 1 chamada não atendido, era dos seus pais, tentaram contatá-la à duas horas atrás. Retribuiu a chamada mas entretanto chegou o comboio e o barulho ensudecedor que o acompanhava levaram-na a desligar e a prometer que ligaria mais tarde. Entrou na carruagem praticamente vazia e sentou-se junto à janela. À sua frente ia sentado um jovem casal que se acarinhava e beijava como se o mundo fosse todo deles, como se estissem isolados do mundo sem ninguém a quem prestar contas. Virou-se para a janela encontando a cabeça e fechou os olhos.

Recordou a sua infância. Como brincava com o seus amigos da aldeia. Em pequena era parecida com os rapazes, gostava de jogar à bola de correr, de pular, de subir às árvores e de estar com eles. Até o seu cabelo tinha um corte masculino. Era apelidada de Maria Rapaz e não se importava. Era assim que gostava de ser. Nas tardes de natal adorava ir com os amigos à lenha para a fogueira que iria aquecer os pés ao menino Jesus mesmo à porta da Capela. Tiravam a carroça de varais da cabana, percorriam o bardo sem fazer barulho e saíam pelo portão sem que o avô se apercebesse. Percorriam distâncias loucas, pelas encostas acima e pelas encostas abaixo, em busca de cepas secas esquecida nos terrenos vizinhos, nos pinhais ou no mato. Só os mais pequenos à guarda dos irmãos mais velhos é que iam em cima da carroça, todos os outros faziam-na deslocar. Não havia nem burro nem macho nestas ocasiões. Uma vez carregada era despejada em monte junto à porta da Capela e ateada com a ajuda de carquejas e pinhas secas. Esta cerimónia era a mais esperada, a noite já avançava e o frio também já era muito quando ateavam a fogueira que os aquecia a todos dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Mas de um dia para o outro tudo mudou. A sua percepção do Mundo alterou-se radicalmente e as brincadeiras que outrora eram indispensaveis agora eram insuportáveis. Maria tornara-se mulher.

Deixou cair em cima dos pés o guarda-chuva que tinha na mão, abriu os olhos sobressaltada e reparou que tinha chegado ao destino. Pegou nas suas coisas e saiu ainda meio zonza pelo sono. Continuava a chover. O vento era agora mais impiedoso, ao tentar abrir o guarda-chuva sentiu-o quebrar e voar ao longo da linha fugindo da sua dona. Desesperada levantou a cabeça em direcção ao céu e sentiu a chuva fria a cair-lhe no rosto. Baixou o olhar, aconchegou o casaco junto ao pescoço e seguiu decidida em direcção a casa.

Entrou em casa toda ensopada e a tremer de frio. Não sentiu o aconchego quentinho do lar pois a casa era bastante húmida, fria e vivia sozinha. Correu para a casa de banho, tirou as roupas completamente encharcadas de água e começou a tremer ainda mais. Ligou o ventilador no máximo e colocou-se à frente do ar quente que vinha do pequeno aparelho. Os seus lábios carnudos moviam-se sem que ela os estivesse a controlar e tentava aquecer o corpo com os braços cruzados, mas não estava a dar resultado. Ligou a torneira da água quente do duche e entrou na banheira. Encolhida sentia a água quente a bater-lhe nas costas e na cabeça, parecia um punhal que lhe era cravado no corpo, até que começou a aquecer e a habituar-se. Ao fim de alguns minutos já se sentia melhor mas as suas pernas não tinha reacção para deixar o chuveiro. Juntou a pouca coragem que lhe restava, fechou a torneira, envolveu-se na toalha e correu em direcção ao quarto. Rapidamente vestiu o pijama polar que concordou ter sido uma das maiores invenções até ao momento.

Através das paredes conseguia ouvir as vozes dos vizinhos e de mais gente que deveriam ser familiares, riam, riam e falavam alto e tornavam a rir mais um pouco. A festa estava animada. Baixou o olhar e lembrou-se de ligar para casa para falar com os pais. Pegou no telemóvel que apenas se encontrava molhado por fora e reparou que tinham tentado ligar de casa, retribuiu a chamada. O telefone tocou, tocou, tocou e nada ninguém atendia. Lembrou-se de ligar para o telemóvel do pai que desde que o comprara passara a ser o seu melhor amigo, mas nada. Em casa não havia rede, a algazarra era total. Os sobrinhos que há bem pouco tempo tinham aprendido a falar moviam-se freneticamente pela casa e o sossego era palavra desconhecida. Já tinha sido o substantivo mais identificativo deste lar, mas agora estava repleto de vida. De vida que se encontrava irrequieta, na cozinha junto à lareira, com medo de adormecer e não poder, desta forma, abrir os presentes. O barulho impedia que alguém a ouvisse. Tentou mais uma vez o telefone e nada. Estava só.

Estava cansada, triste e só na noite de natal. No dia seguinte, antes do sol se levantar tinha de se levantar para ir trabalhar. Sentia-se tão vazia que uma pequena lágrima surgiu da fonte dos seus olhos azuis e jorrou pela sua bochecha macia, a seguir outra … e outra. Deitou-se na cama tapou-se e escondeu-se debaixo das mantas como que para evitar que os seres ausentes não a vissem a descarregar toda a água armazenada no saco lacrimal.

Por entre este estado de abatimento e submissão ouviu o telemóvel vibrar em cima da mesa-de-cabeceira. Um SMS tinha acabado de entrar na sua caixa de mensagens. Recompôs-se um pouco, lutando contra parte do seu corpo que se sentia vencido e pegou no telemóvel. Limpou a cara com as mangas da camisola do pijama e abriu a mensagem. De repente os seus olhos começaram a brilhar, o seu rosto rejuvenesceu-a e esboçou um sorriso confidente. Apenas cinco pequenas letras foram suficientes para a transfigurar. “Amo-te”. Retribuiu a mensagem a alguém e deitou-se agora em paz e sossego. Lá fora as estrelas brilhavam agora com maior intensidade.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Palpitações


Tudo se move. Nada permanece perenemente no seu lugar. A rocha move-se com o vento, a água com a corrente, o homem com a mente, a vida com um sopro.

Ficar no mesmo lugar é não sentir. É não ouvir. É a indiferença pelo que se move, pelo que tem vida, pelo que segue o seu caminho. Nada nem ninguém pode ficar indiferente ao que nos reserva. Tudo o que sentimos está escrito no infinito, tudo é premeditado, mas ninguém consegue desvendar a força superior que tudo controla, que tudo subjuga e nos move como marionetas. Os cordelinhos podem ser fortes e firmes e desta forma conseguem superar a maior das tempestades, mas também podem ser fracos e suaves e voar com a leve brisa que por vezes se faz sentir durante o amanhecer.

O cenário em que nos movemos é compassado pelo som do efémero órgão da vida. Todo este palpitar é observado por entre a íris de todo o ser vivo. Os seres não vivos não possuem íris no entanto o seu palpitar é superior a qualquer outra das forças. A sua natureza é bem mais feroz e atroz que qualquer objecto desenvolvido pelo homem. Nada lhes consegue fazer frente nem nada se atreve.

É esta natureza que faz mover o mundo. Foi esta natureza, ou ser superior, como lhe queiram chamar, que lhe deu vida com um ligeiro sopro e um dia será esta, que da mesma forma, transformará toda esta matéria em triliões de grãos que areia levados pelo vento.

Será que algum dia iremos perceber isso?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

E se dúvidas houvesse!!!

O fundador e nove membros da IURD são acusados de usar dinheiro dos fiéis

Era sempre assim. Quando a música baixava e os apelos do pastor deixavam de se ouvir, os fiéis levantavam os joelhos do chão para depositar o dinheiro no altar. Lá fora, as dúvidas permaneciam. Durante 32 anos, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) rejeitou todas as suspeitas de corrupção, mas elas nunca desapareceram. Agora colaram-se à instituição para sempre. O Ministério Público de São Paulo acusou o fundador, Edir Macedo, e outros nove membros de associação criminosa e lavagem de dinheiro.

As três décadas de história da IURD contam-se com somas milionárias, multidões de fiéis, discursos inflamados e, sobretudo, suspeitas. Logo em 1977, uma inspecção da Receita Federal sugere que a igreja deve perder a imunidade fiscal porque está a ser usada para ganhar dinheiro - segundo a Constituição do país, o património e as fontes de rendimento das igrejas só podem ser utilizados para actividades religiosas e nunca para a obtenção de lucro. Uma década depois, a mesma instituição elabora um estudo para regulamentar as doações de dinheiro relacionadas com a fé. A proposta nunca foi aprovada.

O VÍDEO DO DÍZIMO Outras dúvidas são levantadas quando, em 1995, Edir Macedo surge num vídeo a ensinar aos pastores como pedir dinheiro aos crentes. "Se você se mostrar chocho, o povo não confia em você. Você tem de falar como se fosse o super-herói do povo. Peça, peça... Se houver alguém que não dê, há um montão que vai dar", explicava com uma exuberante coreografia de braços.

Desde que o vídeo foi divulgado, a instituição foi exaustivamente investigada, mas pouquíssimas irregularidades ficaram provadas nos dez processos que foram instaurados.

O Código Penal brasileiro não inclui práticas religiosas. Se alguém quiser doar todo o seu património à igreja, tem toda a liberdade para o fazer. Assim, para condenar os líderes da igreja, um objectivo era fundamental: provar que o dinheiro doado estava a enriquecer os líderes da igreja e não a financiar obras de caridade.

Era preciso descobrir o percurso do dinheiro desde que saía dos bolsos dos crentes até ser usado para pagar a construção de uma mansão de 6000 m2 (como a construída por Edir Macedo em 2007). É isto que, após dois anos de investigação, os procuradores acabam de conseguir. Entre 2001 e 2008, a IURD recebeu mais de 3 mil milhões de euros doados pelos seus 8 milhões de seguidores. Metade do dinheiro foi colocado na caixa do dízimo dos templos, a outra metade chegou através de 4015 transferências bancárias. Nenhum deste dinheiro pagou impostos.

EMPRESAS FANTASMA Alguns destes milhões foram depois utilizados em pagamentos a duas empresas-fantasma: a Cremo Empreendimentos e a Unimetro Empreendimentos. Só em 2004 e 2005, estas empresas (que não prestam um único serviço) movimentaram 27 milhões de euros, garantiu à revista "Veja" fonte da Secretaria da Fazenda.

A paragem seguinte destes milhões eram duas empresas sedeadas em paraísos fiscais nas ilhas Caimão e nas do Canal (a Investholding e a Cableinvest). Sob a forma de empréstimos a executivos da IURD, o capital regressava depois à terra natal para ser aplicado na compra de aviões particulares (como um Cessna de 1 milhão de euros), mansões ou para ser investido no império que a igreja construiu na comunicação social - 22 canais de televisão e 42 estações de rádio.

Edir Macedo é hoje dono de 90% da Rede Record (a mulher possui os outros 10%), que foi comprada em 1992 por 20 milhões de dólares. Além disso, tem dois apartamentos de luxo na sofisticada Collins Avenue, em Miami. Um foi comprado por 1,5 milhões de euros e o outro por 3,3 milhões. Em 2007 construiu uma enorme mansão de 2000 m2 em São Paulo, em Campos Jordão. É lá que parte do tesouro da IURD estará enterrado.

In ionline, por: Alexandre Soares, Publicado em 21 de Agosto de 2009.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os verdadeiros Tomb Ryders


No séc. XVIII, Edimburgo era um dos maiores centros de estudos anatómicos. Muito se deveu ao Dr. Robert Knox que privilegiava o estudo prático em corpos humanos verdadeiros. Era alimentado pelos cadaveres dos condenados à morte. No entanto a "oferta" não era a suficiente sendo que o pagamento por cada cadaver era aliciante, para que os seus alunos pudessem desenvolver as suas capacidades da forma mais realista possível.

Não havendo matéria prima suficiente começaram a surgir verdadeiros tomb ryders que exumavam os corpos logo após a sepultura e os vendiam. Rapidamente os familiares dos defuntos formaram milícias para vigiar os cemitérios e os corpos para estudo voltaram a escassear.

Até que dois irlandeses, William Hare e William Burke, se lembraram de nutrir a anatomia com corpos de pessoas saudáveis. Para não se levantarem suspeitas da causa da morte, as vítimas eram embriagadas com whisky e depois asfixiadas de forma a não deixarem vestígios. Depois de 16 vítimas foram capturados e condenados. Também Knox, vítima ou não, caíu em desgraça bem como o seu curso de anatomia.

Tudo isto foi possível pois não havia na altura nenhuma legislação relacionada com o uso de cadaveres para estudo da anatomia.

Em 1832, no seguimento destes actos macabros, surge o Anatomy Act, promulgado pelo Parlamento Britânico, segundo o qual passou a ser permitido o uso de cadaveres não reclamados pelos familiares para o ensino da anatomia.

Este princípio ainda vigora em muitas sociedades.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

William Walace


Por estes dias fiquei a conhecer uma civilização nova. Não nova no sentido de ter surgido ou que tenha sido descoberta recentemente, mas no sentido de que não me recordava de alguma vez ter ouvido falar sobre ela. Os Picts foram os ascendentes dos Escoceses. Antes da Independência da Escócia, que aconteceu em 1320, as terras altas eram habitadas por estas tribos. Por esta altura, uns anos antes, William Walace conseguira unir algumas destas tribos para expulsar os ingleses que a pouco e pouco iam subindo para norte. O Gigante Cavaleiro Walace e mais tarde o seu sucessor e futuramente Rei da Escócia Robert The Bruce conseguem fazer ver aos Ingleses que não conseguiriam combater em 2 frentes e ter sucesso, pois a sul os franceses estavam determinados em reclamar todo este território como seu. Assim foi conseguida a independência da Escócia.

O filme Braveheart, realizado e protagonizado por Mel Gibson, imortaliza através do cinema este passado. Há algumas imprecisões neste filme, como as há em praticamente todos os filmes históricos. As mais notadas são o facto de William Walace ser de uma enorme estatura com cerca de 2 metros de altura, naqueles tempos acreditem que era muito mesmo. Os trajes que vestia no fime não condiziam com a sua posição pois William era um Cavaleiro e usava sempre armadura. Por outro lado a Princesa francesa Isabella, que no filme se apaixona por William, não teria mais de 15 anos na altura. Também não há indícios de pintarem a cara na altura mas sim muitos e muitos anos antes quando os Vikings passaram pelas Highlands.

Uma última curiosidade sobre o filme, William Walace foi traido por um dos seus numa taverna em Royston (agora parte de Glasgow) e foi condenado e executado de forma atroz em Londres, o Cavaleiro em causa era Sir John De Menteith. Não sei se alguma vez se questionaram porque é que os lagos na Escócia são designados por Loch e não por Lake, Loch em Gaélico significa Lake em Inglês, e os Escoceses orgulhosos das suas origens não querem perder a sua lingua ancestral e continuam a utilizar o Gaélico diariamente. Mas há uma excepção curiosa, o lago Menteith é o único que é designado como Lake Menteith como forma de repúdia e desonra à traição de Sir Jonh de Menteith sobre William.

O Guia Turístico e o Condutor

Há alguns dias atrás estive em Edimburgo a passar alguns dias das minhas férias. Foram 3 dias bem passados. Tenho um primo que de momento se encontra neste chuvosa cidade (são raros os dias do ano em que não chove) a realizar o Doutoramente e foi bastante prestável e amigo como um bom Beirão que se preze. Bruno não sei como te agradecer! Pela disponibilidade e pela companhia sempre afável! Se algum dia precisares de algo já sabes onde bater!

A cidade não é grande para uma capital, mas é maravilhosa! Como a maior parte das grandes capitais europeias também possui vários séculos de história. Em termos de habitantes possui menos de 500 mil habitantes o que é muito pouco se compararmos com Glasgow que possui cerca de um milhão e meio sem contar com os arredores e isto numa população total de cerca de 5 milhões de habitantes... é obra sem dúvida!

O transporte mais utilizado, dentro da cidade, nestes dias foi o dos sapatos. Como não tinhamos prometido nada a ninguém e ninguém dependia de nós, andámos, andámos e andámos mais um pouco!

Bem, mas o que pretendia primeiramente dar relevo nestas linhas era o passeio desenfreado que demos de autocarro durante um dia pelas Highlands em direcção ao Loch Ness. O Monstro por estes dias não se avistava por lá mas deixou-nos imensas recordações suas nas Gifts Stores a troco de algumas Libras. Há quem desconfie que é apenas um Mito! Mas para os comerciantes locais ele existe mesmo!

O Sr. Adrien, que como bom escocês usava orgulhosamente o seu magnífico kilt, e o Sr. Alex foram os nossos tutores durante esse dia. Fomos avisados assim que entrámos para o autocarro que se, no final do dia, a viagem não tiver valido a pena eles gostariam de ser recordados como John e Fred. Esta foi a primeira das muitas gargalhadas interiores que todos nós esboçamos.

Confesso que não me recordo de ter aprendido tanta coisa sobre história num só dia, durante os muitos anos de estudante. O que é pena! Mas também não me recordo de ter tido um docente de história tão sui generis como este escocês de kilt.

Sem dúvida alguma que estes 2 promotores locais serão sempre recordados na minha memória como Adrien e Alex!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Unplugged!




Temos muito que aprender! Lembro-me de uma frase que ouvi vezes sem conta quando era seminarista no seminário das Missões na pequena vila de Cernache do Bonjardim: "O Saber não ocupa lugar". Confesso que não tenho sido fiel a esta máxima! Desinteresso-me por vários temas e assuntos! Gosto de acreditar que a razão principal é a de ser realista! Sei que por mais que me esforce nunca conseguirei dominar todas as áreas do saber, mesmo que sejam apenas pequenos pormenores… fascina-me o mundo da informática, da gestão, da saúde… mas quando me falam em programação, equações, fármacos… o meu cérebro começa a ficar inquieto, nervoso, impaciente e apenas quero desligar o interruptor!

A Princesa dos Mares

Foi naquele dia que tudo aconteceu. Era tarde, o sol já se tinha deitado por trás do horizonte aconchegado pelo mar azul. As ruas estavam desertas, a praia também. A areia já não queimava os pés descalços nem o vento dificultava a respiração como durante o dia, altura em que o astro rei reinava sobre todo o universo.

Não houve testemunhas que pudessem relatar os factos acontecidos, que espalhassem o acontecimento ao vento, que impedissem que este momento se tornasse num segredo. No seu grande segredo! Mas havia testemunhas! Sim havia testemunhas silenciosas, e muitas… em cada recanto havia espectadores, em cada duna havia quem esperasse por aquele momento, vinham de todo o lado, muitos surgiam do nada! Apareciam de debaixo das pedras, da areia, do mar e do ar…

Moveu-se para a direita para encontrar a melhor posição para vislumbrar o grande momento, o momento por que todos esperavam. Era já quase como que uma rotina! Em dias de maré baixa, naquele recanto da praia algo acontecia que só eles percebiam. Só eles adoravam aquele momento, era o seu totem!

E heis que empurrada pelas ondas da noite inicia o espectáculo! As antenas tateantes utilizadas vezes sem conta para fazer o reconhecimento do percurso param para este momento, as aves que ficaram acordadas até mais tarde fora do seu peloiro e que aproveitavam para cear pararam tudo para assistir ao momento, também os pequenos e os grandes caranguejos a fitaram com se fosse a primeira vez.

Era a princesa dos mares que Nemo enviava deslizando agora pela areia, para aquela praia. As suas formas deliciavam todos os presentes, ninguém se mexia nem fazia barulho temendo sua alteza se assustasse e desaparecesse pelo imenso azul. Apetecia-lhe chegar-se junto dela e tocar-lhe. Talvez esse pequeno gesto o transformasse num semelhante dela ou a ela num seu semelhante, mas ao olhar para os seus longos tentáculos baixou a cabeça e suspirou!

A princesa com as suas formas límpidas e perfeitas manteve-se com o dorso virado para a areia numa das suas inocentes poses sensuais com o olhar no universo! Parecia contar as estrelas, ou então memorizava-as, ou mesmo ainda comunicava com elas. Ningém sabe, mas algo de mágico se passava e era isso que a mantinha durante muito tempo naquele lugar, naquela posição, na areia e na noite. Até que, por fim, se levantou leve e como que absolvida dos seus pecados se dirigiu para as ondas e pouco a pouco os seus contornos de perdição foram desaparecendo envolvidos pela água e pelo sal. Lá longe, com a ajuda da cauda já em escamas, desapareceu e por último os seus longos cabelos loiros!

A praia ficou suspensa num último suspiro!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O País das Lamentações!




Era uma vez um país à beira mar platando. Um país onde todos vivem a sua vida. Onde todos possuem um espaço que podem chamar de seu, pelo menos enquanto as instituições de crédito não reclamarem o que lhes pertence e que foi ganho arduamente. Rico em vontade e em inteligência. Todos sabem o que é melhor para o outro, assim como que uma espécie de tentativa de subjugação...

Além das inúmeras qualidades dos seres deste país há uma que é hunânime. É a da lamentação! Um bom e digno habitante deste país tem de saber lamentar-se, não essa lamentação tipo lamechas que ninguém liga mas uma lamentação que enche o olho. Que leve o outro a lamentar-se da nossa própria lamentação! Que o sensibilize ao ponto de lacrimejar. O mais engraçado é que essa lamentação cresce em proporção do respectivo poder. Só desta forma se consegue compreender como é que os afortunados estão cada vez mais afortunados!

O dia das lamentações começa bem cedo, ainda em sonhos! "Como é que foi possível aos Inspectores da Segurança e Higiéne no Trabalho passarem pela minha empresa a uma hora em que não estava para os receber?". Ao levantar, "como é que é possível eu ter de levar os miúdos à escola se tenho muito para fazer?", "como é que um empregado só fez isto se está provado que este trabalho se faz em muito menos tempo?", como é que o governo nos taxa a nós se somos nós que pomos este país a andar para a frente?", "como é que… como é que…"

Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção!

Palavras lançadas ao Vento!



Palavras que não vejo, palavras que não ouço, palavras que não alcanço. Tudo são palavras… a terra, a areia, a casa, o amor, a morte são palavras antes de tudo. Têm peso, quando são arremessadas sem pensar, pois não estamos à espera, e dóem… sim… dóem como se fossem pedras! Não deixam vestígios à flôr da pele mas sangram como rios que descem das montanhas em direcção ao mar. As outras são leves, não ferem, suscitam talvez alguma sensibilidade mas são quase sempre lançadas ao vento!