sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Herói

Sou um herói. É verdade sou um herói com super-poderes. Não me recordo quando tive a primeira percepção desta minha condição sobre-humana, mas desde miúdo que me vou apercebendo dia-a-dia de novos poderes. Poderes que, por vezes, não consigo controlar. Sinto-me sempre a flutuar. Passo o tempo todo a flutuar por entre vales e montanhas, ruas e cidades. Ninguém me detém. Sou livre e descomprometido, pairo no céu azul, nas profundezas da terra, enfim onde me sinta bem. Ontem por exemplo estive a flutuar por entre os mares da Somália. Não encontrei nenhum pirata. Talvez já estivessem a contar com a minha presença e não se atreveram a sair de casa. Anteontem estive nas favelas do Rio de Janeiro onde detive mais um tiroteio entre gangs. Esta noite talvez descanse. Provavelmente, irei para uma ilha deserta descansar à beira-mar, deitado na areia a sentir o sol a acariciar a minha pele lentamente. Sim, vou aproveitar para descansar.

Lembro-me de um dia em que uma velha, sim muito velhinha com pele enrrugada pelo tempo e pela vida, pelo sol e pela chuva, pelas alegrias e tristezas, me agarrou na mão e me puxou para junto dela. Que fazes aqui, perguntou-me. Pairo pelo ar à procura de alguém para ajudar, respondi-lhe. Olhou para mim e sorriu, depois desapareceu.

Um som agudo fez-me regressar. A minha rotina chama-me. O trabalho espera-me como todos os filhos esperam pelos pais quando termina a escola. Irrequietos e sem desculpas, apenas pontuais. Continuo a usar os meus super-poderes, ninguém me detém. Consigo mover todo o amontoado de papéis para o seu respectivo arquivo sem lhe tocar. Sem deixar uma única impressão digital, sem errar num único local. Consigo responder a todas as solicitações recebidas via e-mail só com o poder da minha mente, mais uma vez sem deixar nenhum rasto da minha passagem. Consigo evitar discussões e confusões apenas com o poder do meu olhar.

Mais tarde no regresso a casa alguém nos interpela no meio da rua, o dinheiro ou a vida, ordena. Lentamente levanto o braço e estendo a mão para o ajudar e um estrondo ecoa por entre a imensidão da noite. Fico parado. Por momentos o pobre também fica perplexo, incrédulo, imóvel. Mas, subitamente começa a correr e desaparece nas trevas. Quero voar para o alcançar e não consigo, quero correr para o alcançar e não consigo, quero mexer-me e não consigo. Caio para trás desamparado. Seguram-me a cabeça no ar, falam comigo. Começo a ouvir as vozes a afastarem-se, cada vez mais. A iluminação da rua começam a perder intensidade. Começa a surgir lentamente uma leve brisa que se vai espalhando por todo o ar. Com ela surge o nevoeiro. O nevoeiro começa a envolver toda a noite. As vozes soam cada vez mais longe. O eco na minha cabeça desaparece. As palpebras vão-se juntando como dois casais numa noite de inverno no seu leito.

E por fim, o breu envolve todo o nevoeiro e não volto a acordar!

Nenhum comentário: