sábado, 27 de dezembro de 2008

A autoestrada

Sou um sortudo. Cresci numa pequena aldeia deconhecida no mapa. Surgem como do nada na IC 8 algumas habitações que se mantêm por cerca de 3 ou 4 kilometros. São várias aldeias que se agarraram à autoestrada com unhas e dentes e aí permanecem. Há já vários anos que se fala que tem os dias contados que vai ser desviada para oeste, para leste, para noroeste... sei lá! Já são tantas versões. Mas ela continua lá e as pequenas aldeias teimam em não a abandonar. São nestes míseros 3 ou 4 kilometros que a determinada altura, no meio de uma curva aparece-nos um cruzamento que nos leva à minha aldeia. Não me recordo do último casal que aqui se estabeleceu. Provavelmente o polícia que trabalha na cidade mais a mulher. Sim acho que foram eles! Nestes meus trinta anos de vida apenas me recordo deste casal... muito provavelmente alguns familiares virão passar aqui a reforma. Não é muito grande, nunca o foi. Neste momento deve ter cerca de vinte e cinco a trinta casas habitadas.

A minha sorte tem a ver com isso mesmo. Conheço toda a gente. Não quero dizer que fale com todas as pessoas abertamente e da mesma forma, mas que as conheço e elas conhecem-me. Nunca nos sentimos a sós. E por vezes o tempo pára. Pensem viver num sítio onde o tempo pára. Já imaginaram? Então imaginem que estão na vossa casinha no campo com um terrenozinho por perto, vosso, ao ar livre a respirar em plenos pulmões e que de repente nada mais existe e o tempo pára! Se alguma vez conseguirem fazer isto acreditem que só assim é que vão sentir-se realmente em casa. Toda a gente me conhece e eu conheço toda a gente.

Cresci com os meus irmãos na brincadeira, na rua e com os meus amigos. Na escola os meus amigos eram os mesmos do dia a dia, das minhas brincadeiras da rua... Todos nós crescemos e seguimos o nosso caminho. Alguns sairam de lá e raramente regressam. E quando regressam a desculpa é a dos pais. Quando estes partirem também vão deixar de vir por muitos anos até que um dia mais tarde vão regressar de vez, para passar a velhice na calmia da sua casinha e do seu terrenozinho perdido junto ao IC8.

Alguns não terão essa sorte. Recordo com saudade alguns dos meus amigos que numa madrugada de sábado à noite se despistaram nesta autoestrada que não fala. Que não soube explicar aos seus pais, amigos e familiares o que aconteceu naquela noite. O certo é que de cinco amigos dois deles deixaram-nos nessa noite fria. Dos restantes, um ainda se pode ver pelas ruas de uma aldeia vizinha a deambular apoiado em canadianas, pois nunca mais recuperou o controlo dos movimentos motores a cem por cento e a destreza psicologica também nunca mais será a mesma. O único que saíu ileso deste terrível acidente foi levado no mês passado. Era da minha idade. Acompanhou-me durante o seu percurso escolar, antes de abandonar os estudos. Levaram-no como um anjo, no seu sono. No local onde sempre viveu depois de vir de França com o pai emigrante, em sua casa, junto à autoestrada.

Os Filipes foram sepultados ao lado um do outro. Não foram esquecidos pelos amigos da sua e da minha aldeia. Na sua campa podem encontrar uma placas dos amigos do Estevês. Ainda lá estão e sempre continuarão como eram. Amigos. O mais velho ainda o estou a ver com aquele sorriso de conquista quando comprou a viatura assassína, com o suor do seu trabalho, sem recurso a ajudas. O mais novo costumo acreditar que de certa forma fui uma influência positiva na sua vida, pois já depois de eu ter saído do seminário, entrou para o mesmo sítio. E lá permaneceu durante alguns anos. Era adorado e amado por todos. Era um anjo com aqueles cabelos encaracolados e sorriso que conforme se abria fazia com que os olhos se fachassem pouco a pouco. Bem, para estes três grandes amigos apenas desejo que se estejam a divertir onde quer que estejam e que quando for a minha vez que me acolham para participar também nas vossas brincadeiras.

Um abraço!

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