Em pequeno não tinhamos transporte para nos deslocarmos em família. Os avós maternos sempre viveram na mesma casa que ainda hoje se mantém em pé. Velha, húmida, sem casa de banho, caiada, e há já largos anos que começou a deteriorar-se. Agora serve apenas como loja de apoio. Muitas foram as vezes em que me aquecia junto à lareira com os meus irmãos e primos enquanto as nossas mães e avós migavam a carne. Os homens que tinham desmanchado o animal pela tarde colocando a carne com gordura num alguidar de um lado, a carne sem gordura noutro, e era pouca, a parte da gordura pondo de parte o toucinho para salgar, era colocado num outro maior que serviria para encher as farenheiras, a grande companhia das couves durante o inverno, estavam agora à conversa. As matanças eram das poucas épocas em que a família se juntava quase toda naquela pequena casa. Não me recordo de outras noites em que tivesse tanta vida. Depois da morte dos meus avós nunca mais lá entrei. O meu tio a quem calhou em sorte a casa transformou-a no local de apoio para as suas ferramentas da lavoura. O pátio continuou a albergar caprinos juntamente com alguns ovinos...
Os meus avós paternos viviam longe. Muito mais longe. A perto de 2 horas de distância. A pé. Passando pelos campos desertos. Não foram muitas vezes, mas fizémos este percurso para irmos ter com a família, à tarde, depois de a matança estar consumada com a ajuda dos meus tios. No regresso vinhamos todos de mota. Na velha zundap 4 que o meu pai comprou quando veio de ultramar. Com cuidado perseguia a fraca luz que corria à frente da mota, com todos os 5. Eu ao colo da minha mãe e encostado ao dorso do meu pai, o meu irmão do meio sentado em cima do depósito da gasolina e o meu irmão mais velho atrás agarrado à minha mãe. Não foram muitas vezes, pois conforme íamos crescendo deixámos de caber todos na pequena mota que soava pela noite com os pneus bem espalmados. Assim a partir de determinada altura o meu pai tinha de fazer 2 viagens para colocar toda a família em casa. Sinceramente não sei por que ordem nos levava, mas presumo que por ser o mais sossegado viria sempre em último lugar enquanto a minha mãe aguardava em casa com um dos meus irmãos.
Não sei como, nem com quem aprendi ou perdi a vergonha de pedir boleia. Talvez através da televisão, mas sinceramente não consigo precisar. Nos meus tempos de seminarista no Seminário das Missões, em Cernache do Bonjardim, vim várias vezes à boleia para passar as férias do natal ou outras festividades a casa. A imagem que mais me marca foi quando descia a estrada, junto à casa dos meus pais com uma pequena, porém grande para mim pois tinha 13 ou 14 anos, mala de cartão por vezes à cabeça outras quase de zazorro. Na verdade trazia coisas que não precisava, no entanto precisava de trazer algo para sentir que vinha de longe para ver a minha família.
Era um risco. Não vinha sozinho. Tinha um amigo que apanhava boleia comigo e que ficava a meio caminho. Com ele fazíamos cerca de 20 km à boleia e depois seguia sozinho para Proença-a-Nova de onde apanhava o autocarro para a minha aldeia. A sua chamava-se Vale do Pereiro, perto da Sertã. Marco Paulo se algum dia leres estas linhas espero que ainda te lembres dos nossos bons tempos de seminaristas. Um abraço!
No total eram perto de 50 km que fazia sozinho com aquela tenra idade. Sem medo, despreocupado, inocente.
Mais tarde tive outra grande aventura. Quando a recordo penso que ninguém o faria nos tempos de hoje com 15 anos. Pelo menos com autorização dos pais. A minha mãe e os meus irmão encontravam-se na apanha do tomada durante as férias escolares do Verão no Vale de Santarém. Como as minhas aulas tinham terminado mais fui ter com eles. Lembro-me que o meu pai me colocou no comboio em Vila Velha de Rodão com a indicação de sair na estação de Santarém e para depois apanhar um taxi para me juntar à minha mãe e aos meus irmãos. Era o segundo verão que passava as férias no Vale de Santarém. Ao sair na estação, junto ao rio Tejo, subi a encosta até ao centro da cidade pois nenhum taxi parou ao passar por mim. A noite estava a chegar. Atravessei toda a cidade tomando a direcção do Vale e ignorei todos os taxis que me tinham ignorado minutos antes. E pedi boleia. Já de noite. Hoje penso que tive sorte. Alguém sério me deu boleia e me levou ao destino, ainda me recordo da cara do homem um pouco incrédulo, no entanto eu estava confiante...
As últimas vezes que fiz viagens à boleia ocorreram três ou quatro anos mais tarde, quando me encontrava no Superior em Portalegre. Vinha praticamente todos os fins-de-semana a casa. Não me recordo de fazer muitas viagens de autocarro. O preço do bilhete era bastante elevado para um estudante como eu! Cada viagem era uma aventura diferente. Sempre sem problemas.
Hoje olho para trás e por vezes nem quero acreditar nesses tempos. Porque será que temos medo do presente? Será que as pessoas de hoje são assim tão diferentes das de à 15 ou 20 anos atrás? Ou será que somos nós que as fazemos assim?

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