sábado, 27 de dezembro de 2008

Switzerland aqui vou eu!



Se houver um prémio para uma das coisas mais loucas que fiz na vida até ao momento esta estará na luta. O Verão ainda não tinha chegado mas as férias de Verão estavam a começar. Foi em Junho, na viragem do século. Andava aborrecido. É verdade. Só de pensar nas férias sentia-me mal. Mais um ano passado e mais umas férias a trabalhar no duro, seis dias por semana, para poder continuar a estudar outro ano. Era sempre assim, desde os meus treze anos que trabalhava, que trebalhava no Verão para poder estudar mais um ano. Já estava cansado. Ano a ano seguia o meu caminho, mas não suportava pensar nas férias. Neste ano passei-me completamente e logo que tive conhecimento que um colega de infância, que emigrara para a Suiça, estava por cá fui falar com ele. Acertei alguns pormenores com um familiar que também se encontrava lá perto e fiz-me à estrada com o meu amigo. Em pouco mais de uma semana tratei de tudo, malas, passaporte... e pouco mais... no dia a seguir ao último dia de aulas, foi numa manhã de sábado, dia dez se a memória não me falha, partímos estrada fora.

A viagem para mim foi uma autêntica novidade. Era a minha primeira grande viagem nos meus vinte e dois anos de vida. Não é nada de especial se pensarmos que por exemplo o meu pai partiu para angola com dezasseis anos. Para mim era. E muito. Era algo que apenas eu queria fazer e fi-lo do princípio ao fim. Aquilo que mais me impressionou nesta viagem para além das belas paisagens e dos enormes aglomerados populacionais que íamos passando foi a qualidade das estradas. Sempre que passavamos uma fronteira sentía-se logo a diferença, para melhor. A viagem correu sem problemas, o carro portou-se bem, o condutor também. Parámos várias vezes, ora para beber café, ora para abastecer o carro com combustível, ora para pagar a portagem. Não parámos para comer, não havia tempo... íamos comendo e andando. Apenas me recordo de termos parado uma vez para descansar, foi numa altura em que o meu companheiro já se sentia muito cansado e decidiu encostra para descansar 2 ou 3 horas não mais. Ao fim de muitas horas de viagem já só via estrada à minha frente. Ao fim de muitas autoestradas em que só víamos rectas pela frente a determinada altura quando surgia uma curva tínha de parar para pensar se realmente era uma curva ou um fruto da minha imaginação. Era assim que me sentia e era apenas o pendura, nem queria imaginar como se sentiria o meu amigo que conduzia há já muitas horas! No total foram cerca de vinte e duas ou vinte e três horas de viagem a uma velocidade que com a vontade de chegar ao fim de mais uma recta, de mais uma autoestrada, de mais uma povoação, de mais um país, era proibitiva mas prefiro nem falar disso.

Assim quando chegámos à fronteira, entre a França e a Suiça, na zona de Genéve, já nos sentíamos quase no nosso destino. Aí começaram os problemas. Eu trazia a lição bem estudada. Teria de dizer aos militares suíços que se encontrariam a controlar as entradas no país que, como não possuía uma cópia de um contrato de trabalho, vinha de férias. Mas qualquer militar naquela função compreenderia que um português nunca iria passar três meses de férias num país com um nível de vida muito mais caro. Apenas queriam evitar que eu fosse mais um que fosse desestabilizar a ordem e o progresso locais. Já havia muitos alertas nessa altura. Na Suiça já se notava que não era o que tinha sido anos atrás, um país com uma elevada prosperidade. Lembro-me de dizer mais tarde com alguma vaidade, a alguns colegas de trabalho, que a taxa de desemprego na altura em Portugal era uma das mais baixas da União Europeia, e era mesmo, enquanto que a da Suiça era bem superior. Estávamos então na fronteira a aguardar. Enquanto víamos entrar viaturas familiares. Confesso que temi que não me deixassem entrar e não deixavam, a minha sorte foi que tinha comigo o contacto telefónico do meu familiar e prontamente ligaram-lhe. Confirmada a nossa mentira deixaram-me entrar na condição de ter de me apresentar quando fosse solicitado, juntamente com o meu familiar numa junta conforme desigando pelas autoridades, apenas para garantir que estava à responsabildade de alguém e que não andava por lá à deriva, pronto para me tornar em mais um problema.

Primeiramente fiquei na casa desse meu familiar e assim que tive nas mãos um contrato de trabalho assinei-o e comecei a trabalhar. Era um hotel de quatro estrelas, com piscina interior aquecida, sauna, banhos turcos e muitos outros luxos. Passei a morar no hotel, num pequeno quarto com poucas mordomias, uma cama uma cadeira um guarda-roupa, um pequeno frigorífico no qual apenas guardava uma garrafa de água e chocolates, montes de chocolates e "la piéce de résistance" uma varanda com uma mesa e duas cadeiras de espalanada. Passei boas tardes a ler e a houvir música nesta varanda. Situava-se em Sigriswille, a uma hora da capital Berna, no sopé das montanhas. Todos os dias chegavam autocarros de pequenos homens e mulheres que ninguém compreendia quando falavam. Sempre cheios de malas e máquinas fotográficas para captarem todos e mais alguns momentos para mais tarde recordar. Os clientes asiáticos eram mesmo em maior número, tudo por causa das montanhas. Todos queriam ver os Alpes. Todos se encontravam de férias.

A autoestrada

Sou um sortudo. Cresci numa pequena aldeia deconhecida no mapa. Surgem como do nada na IC 8 algumas habitações que se mantêm por cerca de 3 ou 4 kilometros. São várias aldeias que se agarraram à autoestrada com unhas e dentes e aí permanecem. Há já vários anos que se fala que tem os dias contados que vai ser desviada para oeste, para leste, para noroeste... sei lá! Já são tantas versões. Mas ela continua lá e as pequenas aldeias teimam em não a abandonar. São nestes míseros 3 ou 4 kilometros que a determinada altura, no meio de uma curva aparece-nos um cruzamento que nos leva à minha aldeia. Não me recordo do último casal que aqui se estabeleceu. Provavelmente o polícia que trabalha na cidade mais a mulher. Sim acho que foram eles! Nestes meus trinta anos de vida apenas me recordo deste casal... muito provavelmente alguns familiares virão passar aqui a reforma. Não é muito grande, nunca o foi. Neste momento deve ter cerca de vinte e cinco a trinta casas habitadas.

A minha sorte tem a ver com isso mesmo. Conheço toda a gente. Não quero dizer que fale com todas as pessoas abertamente e da mesma forma, mas que as conheço e elas conhecem-me. Nunca nos sentimos a sós. E por vezes o tempo pára. Pensem viver num sítio onde o tempo pára. Já imaginaram? Então imaginem que estão na vossa casinha no campo com um terrenozinho por perto, vosso, ao ar livre a respirar em plenos pulmões e que de repente nada mais existe e o tempo pára! Se alguma vez conseguirem fazer isto acreditem que só assim é que vão sentir-se realmente em casa. Toda a gente me conhece e eu conheço toda a gente.

Cresci com os meus irmãos na brincadeira, na rua e com os meus amigos. Na escola os meus amigos eram os mesmos do dia a dia, das minhas brincadeiras da rua... Todos nós crescemos e seguimos o nosso caminho. Alguns sairam de lá e raramente regressam. E quando regressam a desculpa é a dos pais. Quando estes partirem também vão deixar de vir por muitos anos até que um dia mais tarde vão regressar de vez, para passar a velhice na calmia da sua casinha e do seu terrenozinho perdido junto ao IC8.

Alguns não terão essa sorte. Recordo com saudade alguns dos meus amigos que numa madrugada de sábado à noite se despistaram nesta autoestrada que não fala. Que não soube explicar aos seus pais, amigos e familiares o que aconteceu naquela noite. O certo é que de cinco amigos dois deles deixaram-nos nessa noite fria. Dos restantes, um ainda se pode ver pelas ruas de uma aldeia vizinha a deambular apoiado em canadianas, pois nunca mais recuperou o controlo dos movimentos motores a cem por cento e a destreza psicologica também nunca mais será a mesma. O único que saíu ileso deste terrível acidente foi levado no mês passado. Era da minha idade. Acompanhou-me durante o seu percurso escolar, antes de abandonar os estudos. Levaram-no como um anjo, no seu sono. No local onde sempre viveu depois de vir de França com o pai emigrante, em sua casa, junto à autoestrada.

Os Filipes foram sepultados ao lado um do outro. Não foram esquecidos pelos amigos da sua e da minha aldeia. Na sua campa podem encontrar uma placas dos amigos do Estevês. Ainda lá estão e sempre continuarão como eram. Amigos. O mais velho ainda o estou a ver com aquele sorriso de conquista quando comprou a viatura assassína, com o suor do seu trabalho, sem recurso a ajudas. O mais novo costumo acreditar que de certa forma fui uma influência positiva na sua vida, pois já depois de eu ter saído do seminário, entrou para o mesmo sítio. E lá permaneceu durante alguns anos. Era adorado e amado por todos. Era um anjo com aqueles cabelos encaracolados e sorriso que conforme se abria fazia com que os olhos se fachassem pouco a pouco. Bem, para estes três grandes amigos apenas desejo que se estejam a divertir onde quer que estejam e que quando for a minha vez que me acolham para participar também nas vossas brincadeiras.

Um abraço!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

As Boleias

Em pequeno não tinhamos transporte para nos deslocarmos em família. Os avós maternos sempre viveram na mesma casa que ainda hoje se mantém em pé. Velha, húmida, sem casa de banho, caiada, e há já largos anos que começou a deteriorar-se. Agora serve apenas como loja de apoio. Muitas foram as vezes em que me aquecia junto à lareira com os meus irmãos e primos enquanto as nossas mães e avós migavam a carne. Os homens que tinham desmanchado o animal pela tarde colocando a carne com gordura num alguidar de um lado, a carne sem gordura noutro, e era pouca, a parte da gordura pondo de parte o toucinho para salgar, era colocado num outro maior que serviria para encher as farenheiras, a grande companhia das couves durante o inverno, estavam agora à conversa. As matanças eram das poucas épocas em que a família se juntava quase toda naquela pequena casa. Não me recordo de outras noites em que tivesse tanta vida. Depois da morte dos meus avós nunca mais lá entrei. O meu tio a quem calhou em sorte a casa transformou-a no local de apoio para as suas ferramentas da lavoura. O pátio continuou a albergar caprinos juntamente com alguns ovinos...

Os meus avós paternos viviam longe. Muito mais longe. A perto de 2 horas de distância. A pé. Passando pelos campos desertos. Não foram muitas vezes, mas fizémos este percurso para irmos ter com a família, à tarde, depois de a matança estar consumada com a ajuda dos meus tios. No regresso vinhamos todos de mota. Na velha zundap 4 que o meu pai comprou quando veio de ultramar. Com cuidado perseguia a fraca luz que corria à frente da mota, com todos os 5. Eu ao colo da minha mãe e encostado ao dorso do meu pai, o meu irmão do meio sentado em cima do depósito da gasolina e o meu irmão mais velho atrás agarrado à minha mãe. Não foram muitas vezes, pois conforme íamos crescendo deixámos de caber todos na pequena mota que soava pela noite com os pneus bem espalmados. Assim a partir de determinada altura o meu pai tinha de fazer 2 viagens para colocar toda a família em casa. Sinceramente não sei por que ordem nos levava, mas presumo que por ser o mais sossegado viria sempre em último lugar enquanto a minha mãe aguardava em casa com um dos meus irmãos.

Não sei como, nem com quem aprendi ou perdi a vergonha de pedir boleia. Talvez através da televisão, mas sinceramente não consigo precisar. Nos meus tempos de seminarista no Seminário das Missões, em Cernache do Bonjardim, vim várias vezes à boleia para passar as férias do natal ou outras festividades a casa. A imagem que mais me marca foi quando descia a estrada, junto à casa dos meus pais com uma pequena, porém grande para mim pois tinha 13 ou 14 anos, mala de cartão por vezes à cabeça outras quase de zazorro. Na verdade trazia coisas que não precisava, no entanto precisava de trazer algo para sentir que vinha de longe para ver a minha família.

Era um risco. Não vinha sozinho. Tinha um amigo que apanhava boleia comigo e que ficava a meio caminho. Com ele fazíamos cerca de 20 km à boleia e depois seguia sozinho para Proença-a-Nova de onde apanhava o autocarro para a minha aldeia. A sua chamava-se Vale do Pereiro, perto da Sertã. Marco Paulo se algum dia leres estas linhas espero que ainda te lembres dos nossos bons tempos de seminaristas. Um abraço!

No total eram perto de 50 km que fazia sozinho com aquela tenra idade. Sem medo, despreocupado, inocente.

Mais tarde tive outra grande aventura. Quando a recordo penso que ninguém o faria nos tempos de hoje com 15 anos. Pelo menos com autorização dos pais. A minha mãe e os meus irmão encontravam-se na apanha do tomada durante as férias escolares do Verão no Vale de Santarém. Como as minhas aulas tinham terminado mais fui ter com eles. Lembro-me que o meu pai me colocou no comboio em Vila Velha de Rodão com a indicação de sair na estação de Santarém e para depois apanhar um taxi para me juntar à minha mãe e aos meus irmãos. Era o segundo verão que passava as férias no Vale de Santarém. Ao sair na estação, junto ao rio Tejo, subi a encosta até ao centro da cidade pois nenhum taxi parou ao passar por mim. A noite estava a chegar. Atravessei toda a cidade tomando a direcção do Vale e ignorei todos os taxis que me tinham ignorado minutos antes. E pedi boleia. Já de noite. Hoje penso que tive sorte. Alguém sério me deu boleia e me levou ao destino, ainda me recordo da cara do homem um pouco incrédulo, no entanto eu estava confiante...

As últimas vezes que fiz viagens à boleia ocorreram três ou quatro anos mais tarde, quando me encontrava no Superior em Portalegre. Vinha praticamente todos os fins-de-semana a casa. Não me recordo de fazer muitas viagens de autocarro. O preço do bilhete era bastante elevado para um estudante como eu! Cada viagem era uma aventura diferente. Sempre sem problemas.

Hoje olho para trás e por vezes nem quero acreditar nesses tempos. Porque será que temos medo do presente? Será que as pessoas de hoje são assim tão diferentes das de à 15 ou 20 anos atrás? Ou será que somos nós que as fazemos assim?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Herói

Sou um herói. É verdade sou um herói com super-poderes. Não me recordo quando tive a primeira percepção desta minha condição sobre-humana, mas desde miúdo que me vou apercebendo dia-a-dia de novos poderes. Poderes que, por vezes, não consigo controlar. Sinto-me sempre a flutuar. Passo o tempo todo a flutuar por entre vales e montanhas, ruas e cidades. Ninguém me detém. Sou livre e descomprometido, pairo no céu azul, nas profundezas da terra, enfim onde me sinta bem. Ontem por exemplo estive a flutuar por entre os mares da Somália. Não encontrei nenhum pirata. Talvez já estivessem a contar com a minha presença e não se atreveram a sair de casa. Anteontem estive nas favelas do Rio de Janeiro onde detive mais um tiroteio entre gangs. Esta noite talvez descanse. Provavelmente, irei para uma ilha deserta descansar à beira-mar, deitado na areia a sentir o sol a acariciar a minha pele lentamente. Sim, vou aproveitar para descansar.

Lembro-me de um dia em que uma velha, sim muito velhinha com pele enrrugada pelo tempo e pela vida, pelo sol e pela chuva, pelas alegrias e tristezas, me agarrou na mão e me puxou para junto dela. Que fazes aqui, perguntou-me. Pairo pelo ar à procura de alguém para ajudar, respondi-lhe. Olhou para mim e sorriu, depois desapareceu.

Um som agudo fez-me regressar. A minha rotina chama-me. O trabalho espera-me como todos os filhos esperam pelos pais quando termina a escola. Irrequietos e sem desculpas, apenas pontuais. Continuo a usar os meus super-poderes, ninguém me detém. Consigo mover todo o amontoado de papéis para o seu respectivo arquivo sem lhe tocar. Sem deixar uma única impressão digital, sem errar num único local. Consigo responder a todas as solicitações recebidas via e-mail só com o poder da minha mente, mais uma vez sem deixar nenhum rasto da minha passagem. Consigo evitar discussões e confusões apenas com o poder do meu olhar.

Mais tarde no regresso a casa alguém nos interpela no meio da rua, o dinheiro ou a vida, ordena. Lentamente levanto o braço e estendo a mão para o ajudar e um estrondo ecoa por entre a imensidão da noite. Fico parado. Por momentos o pobre também fica perplexo, incrédulo, imóvel. Mas, subitamente começa a correr e desaparece nas trevas. Quero voar para o alcançar e não consigo, quero correr para o alcançar e não consigo, quero mexer-me e não consigo. Caio para trás desamparado. Seguram-me a cabeça no ar, falam comigo. Começo a ouvir as vozes a afastarem-se, cada vez mais. A iluminação da rua começam a perder intensidade. Começa a surgir lentamente uma leve brisa que se vai espalhando por todo o ar. Com ela surge o nevoeiro. O nevoeiro começa a envolver toda a noite. As vozes soam cada vez mais longe. O eco na minha cabeça desaparece. As palpebras vão-se juntando como dois casais numa noite de inverno no seu leito.

E por fim, o breu envolve todo o nevoeiro e não volto a acordar!

Estou de volta!

É verdade. Estou de volta. Não prometo que seja de vez, mas pelo menos vou tentar ser mais regular.

Olhem à vossa volta e retratem o quem vêm. Digam-me o que sentem o que vêm o que tocam. Descrevam tudo, tudo mas tudo mesmo. Depois de fazerem sent garanto-vos que se vão sentir diferentes. Outros. Mais completos e mais felizes. Se tal não acontecer é porque não o fizeram com a convicção necessária, com o sentimento necessário, com a vontade que se esperava...

Digam-me o que sentem!