segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Amigo Perfeito


O percurso era sempre o mesmo. Quer estivesse bom tempo, quer estivesse um frio de rachar ou até mesmo quando chovia, passava sempre pela mesma rua, pelo mesmo parque, pelo mesmo descampado contornando o bairro da Herdade, voltando a embrenhar-se pelos prédios até ao fundo da rua onde parava apenas por alguns momentos antes de abrir o portão e entrar no recinto preparatório. Era a sua rotina. Era a sua obrigação. Era a sua aventura. No verão atrasava-se com o calor, no Inverno com a chuva. Não adiantava castigá-lo, pois nunca chegava antes da escola abrir como todos os seus colegas que aproveitavam estes últimos minutos antes de entrarem para a divisão letrada para as derradeiras correrias, brincadeiras, desavenças e conversas.

Quando se aplicava as notas eram boas, mas estava sempre longe, noutro mundo, o que lhe dificultava a aprendizagem. O seu espaço era de encantar. Não havia professores, colegas bulhentos, necessidades, discussões… apenas um super-herói que protegia os mais fracos. Não era de carne e osso, dessa forma deixava de ser super. Não era como ele, dessa forma deixava de ser herói. Era tudo aquilo que não via nele. Tinham longas conversas e aventuras juntos. Ele como fiel e bravo companheiro do ser que nada temia, em contraposição com o guia que sabia tudo e que ninguém ousada enfrentar, pois logo era dominado pela força e agilidade dos seus poderes. Eram amigos inseparáveis, ou quase, pois era-lhe interdita a entrada no recinto. Era um super-herói nada sociável. Era a sua fraqueza, era a sua kriptonite. Nunca estava consigo nos recreios, o que o deixava vulnerável. Do lado de lá da vedação, seguia-o por todo o lado com o olhar, mas não se atrevia a entrar.

Terminadas as aulas, era o primeiro a sair. Se alguém o interpelava lançava rapidamente que o esperavam lá fora. Nunca viam ninguém. Assim lá seguia ele para casa pelo mesmo caminho que tomara. Perigoso, certamente, mas os dois companheiros já estavam há muito preparados para enfrentar todos os perigos desta selva urbana e do parque selvagem. Mais uma vez, surgira da densa vegetação, o enorme animal a atacar com as suas garras sem fim, porém bastava um olhar e as garras se encolhiam. Seguiam de cabeça levantada ele sempre atrás do seu herói de cabeça erguida todo orgulhoso com a valentia deste.

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