Se houver um prémio para uma das coisas mais loucas que fiz na vida até ao momento esta estará na luta. O Verão ainda não tinha chegado mas as férias de Verão estavam a começar. Foi em Junho, na viragem do século. Andava aborrecido. É verdade. Só de pensar nas férias sentia-me mal. Mais um ano passado e mais umas férias a trabalhar no duro, seis dias por semana, para poder continuar a estudar outro ano. Era sempre assim, desde os meus treze anos que trabalhava, que trebalhava no Verão para poder estudar mais um ano. Já estava cansado. Ano a ano seguia o meu caminho, mas não suportava pensar nas férias. Neste ano passei-me completamente e logo que tive conhecimento que um colega de infância, que emigrara para a Suiça, estava por cá fui falar com ele. Acertei alguns pormenores com um familiar que também se encontrava lá perto e fiz-me à estrada com o meu amigo. Em pouco mais de uma semana tratei de tudo, malas, passaporte... e pouco mais... no dia a seguir ao último dia de aulas, foi numa manhã de sábado, dia dez se a memória não me falha, partímos estrada fora.
A viagem para mim foi uma autêntica novidade. Era a minha primeira grande viagem nos meus vinte e dois anos de vida. Não é nada de especial se pensarmos que por exemplo o meu pai partiu para angola com dezasseis anos. Para mim era. E muito. Era algo que apenas eu queria fazer e fi-lo do princípio ao fim. Aquilo que mais me impressionou nesta viagem para além das belas paisagens e dos enormes aglomerados populacionais que íamos passando foi a qualidade das estradas. Sempre que passavamos uma fronteira sentía-se logo a diferença, para melhor. A viagem correu sem problemas, o carro portou-se bem, o condutor também. Parámos várias vezes, ora para beber café, ora para abastecer o carro com combustível, ora para pagar a portagem. Não parámos para comer, não havia tempo... íamos comendo e andando. Apenas me recordo de termos parado uma vez para descansar, foi numa altura em que o meu companheiro já se sentia muito cansado e decidiu encostra para descansar 2 ou 3 horas não mais. Ao fim de muitas horas de viagem já só via estrada à minha frente. Ao fim de muitas autoestradas em que só víamos rectas pela frente a determinada altura quando surgia uma curva tínha de parar para pensar se realmente era uma curva ou um fruto da minha imaginação. Era assim que me sentia e era apenas o pendura, nem queria imaginar como se sentiria o meu amigo que conduzia há já muitas horas! No total foram cerca de vinte e duas ou vinte e três horas de viagem a uma velocidade que com a vontade de chegar ao fim de mais uma recta, de mais uma autoestrada, de mais uma povoação, de mais um país, era proibitiva mas prefiro nem falar disso.
Assim quando chegámos à fronteira, entre a França e a Suiça, na zona de Genéve, já nos sentíamos quase no nosso destino. Aí começaram os problemas. Eu trazia a lição bem estudada. Teria de dizer aos militares suíços que se encontrariam a controlar as entradas no país que, como não possuía uma cópia de um contrato de trabalho, vinha de férias. Mas qualquer militar naquela função compreenderia que um português nunca iria passar três meses de férias num país com um nível de vida muito mais caro. Apenas queriam evitar que eu fosse mais um que fosse desestabilizar a ordem e o progresso locais. Já havia muitos alertas nessa altura. Na Suiça já se notava que não era o que tinha sido anos atrás, um país com uma elevada prosperidade. Lembro-me de dizer mais tarde com alguma vaidade, a alguns colegas de trabalho, que a taxa de desemprego na altura em Portugal era uma das mais baixas da União Europeia, e era mesmo, enquanto que a da Suiça era bem superior. Estávamos então na fronteira a aguardar. Enquanto víamos entrar viaturas familiares. Confesso que temi que não me deixassem entrar e não deixavam, a minha sorte foi que tinha comigo o contacto telefónico do meu familiar e prontamente ligaram-lhe. Confirmada a nossa mentira deixaram-me entrar na condição de ter de me apresentar quando fosse solicitado, juntamente com o meu familiar numa junta conforme desigando pelas autoridades, apenas para garantir que estava à responsabildade de alguém e que não andava por lá à deriva, pronto para me tornar em mais um problema.
Primeiramente fiquei na casa desse meu familiar e assim que tive nas mãos um contrato de trabalho assinei-o e comecei a trabalhar. Era um hotel de quatro estrelas, com piscina interior aquecida, sauna, banhos turcos e muitos outros luxos. Passei a morar no hotel, num pequeno quarto com poucas mordomias, uma cama uma cadeira um guarda-roupa, um pequeno frigorífico no qual apenas guardava uma garrafa de água e chocolates, montes de chocolates e "la piéce de résistance" uma varanda com uma mesa e duas cadeiras de espalanada. Passei boas tardes a ler e a houvir música nesta varanda. Situava-se em Sigriswille, a uma hora da capital Berna, no sopé das montanhas. Todos os dias chegavam autocarros de pequenos homens e mulheres que ninguém compreendia quando falavam. Sempre cheios de malas e máquinas fotográficas para captarem todos e mais alguns momentos para mais tarde recordar. Os clientes asiáticos eram mesmo em maior número, tudo por causa das montanhas. Todos queriam ver os Alpes. Todos se encontravam de férias.

