terça-feira, 22 de maio de 2007

A Luta de Sepúlveda


Hoje apraz-me dedicar algumas palavras deste espaço a um dos melhores escritores contemporâneos. Luis Sepúlveda de seu nome, Chileno. Reconhecido também como realizador, jornalista e activista. Impressiona-me a sua forma de expressar a realidade e a sua clarividência relativamente a temas da actualidade internacional que nos perturbam, mas que directamente pouco podemos impedir, como humildes peões que somos neste xadrez global. As suas exposições e alertas incansáveis, e acredito que o serão até para além do dia da sua morte, remoem e criam um nó no estômago de injustiça, de intolerância, de intransigência, de individualismo que nos colocam no centro do inferno.

A sua batalha iniciou ao lado do seu eterno amigo Salvador Allende, eleito Presidente da República de um Chile em crise em 1970, que afirma convictamente ter sido assassinado durante o golpe Militar em 1973 chefiado pelo “pulha” Augusto Pinochet.
Esse acto nunca foi e nunca será esquecido muito menos perdoado.

A sombra do velho pulha chamado Augusto Pinochet, Ramón Ugarte, Daniel López ou como queira auto-apelidar-se, persegue-me como uma maldição que, se é bem verdade que me alegra porque o velho rufião está a passar mal, também me incomoda como chileno, porque em Varsóvia ou Cracóvia, Lisboa ou Pisa, Póvoa de Varzim ou na minha querida Pietra Santa, as perguntas sobre o Chile terminam sempre referindo o velho vigarista.”*

Nos dias que correm estamos rodeados de vigaristas e pulhas que nada pensam pela humanidade pelo bem-estar geral, pela socialização dos povos, pela partilha, pela igualdade, pela justiça, pela paz, pela concórdia… pelo amor, pela liberdade! Apenas em si mesmos e nos seus interesses. Esta escória desculpa-se com a era do capitalismo, da concorrência, da competitividade, mas a custo de muitas liberdades alheias…

Talvez seja justo ressaltar que há brancos, negros e «gente de cor». Mandela é negro, resplandecentemente negro, luminosamente negro; pelo contrário, Condolezza Rice, Bush, Wolfowitz, Cheney, Rumsfeld, Negroponte, Aznar, Berlusconi, Blair, Powel e Le Pen são «gente de cor». De cor duvidosa.”*



* - in “O Poder dos Sonhos” 2006

Luis Sepúlveda

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