
O senhor José Manuel era o treinador da equipa. Já com umas boas centenas de jogos à frente da equipa era o timoneiro que ia conseguindo levar o barco ao seu destino. Era o profissionalismo e o homem de palavra em pessoa. Propostas foram muitas, feitas por uns que lhe prometiam mundos e fundos, outros que não prometiam tanto mas que gostariam de contar com ele. Todos eles receberam e tiveram de se contentar com um redondo não. Por uma vez se viu tentado a aceitar uma de um escalão superior, mas ao medir os prós e os contras a primeira coluna elevou-se como uma pena. A família vinha sempre em primeiro lugar. Era carpinteiro de profissão. Aprendeu a trabalhar a madeira juntamente com o seu pai na oficina quase centenária que ainda continua todos os dias a funcionar. Apenas até às cinco da tarde, porque depois a troco de alguns trocos, dirigia-se às instalações de futebol local. Era a sua vida. Era a sua terra natal. Eram os seus amigos. Era a sua família. Era ali que se sentia bem. Para quê procurar outro lugar? Conhecia todos os jogadores mesmo antes de começarem a dar pontapés numa bola, mesmo antes de começarem a ir para a escola. Os seus pais quase todos tinham sido seus colegas, ou na escola ou na equipa quando jovem. E a sua ausência durante dez anos para jogar em escalões superiores e outros dez como treinador não afectaram estas amizades. Depois de conhecer bem a realidade do mundo do futebol voltou para a sua terra natal e de lá não mais saiu. Era respeitado por todos até o presidente não tinha coragem de o mandar calar quando por vezes, nas festas municipais, bebia um copo a mais. O que dizia era a realidade e vinda de uma pessoa experiente eram palavras sagradas… “…a nível regional é impossível manter um clube sem ajudas financeiras. É verdade! A publicidade, não tendo a visibilidade nem a projecção nacional não é muito produtiva e muita das vezes os acordos, sim porque por vezes os contratos não são celebrados pelas partes, nem sempre são cumpridos. A venda de bilhetes é uma fonte de receita e não passa disso, raramente (em muitos clubes regionais) é suficiente para pagar à equipa de arbitragem e ao destacamento da Guarda Nacional Republicana. E estamos a falar no escalão sénior, pois nos restantes nem vale a pela cobrar a entrada. Assim se as câmaras Municipais fecham a torneira, mesmo que seja para metade, de um momento para o outro, são os jovens os principais visados. Também é verdade que alguns clubes gastam o dinheiro mal gasto. Muitas propostas acima das possibilidades, promessas e aliciamentos a jogadores que escassas vezes se cumprem. Muitos deles são geridos por pseudo-dirigentes, percebem de tudo menos de contrabalançar a gestão desportiva com a gestão financeira de forma positiva. E o pior é estarem desprovidos de uma cultura desportiva que apenas dignifique o desporto e não que o torne cada vez mais vulgar. Estando no topo da hierarquia do clube deveriam realizar o papel de Big Brother, não apenas como vigilantes e controladores, mas principalmente como exemplo a seguir com atitudes sérias, honestas, responsáveis…” e continuava até se cansar, e a plateia não o interrompia, deliciavam-se com as suas opiniões. Mas isso é outra conversa que iria dar pano para mangas ou muita tinta neste caso!
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