terça-feira, 29 de dezembro de 2009

mais uma noite…


Maria encontrava-se encostada ao abrigo na paragem do comboio. Do lado de fora, é claro, àquela hora já todos os lugares de repouso se encontravam ocupados. Por um lado não se importava, pois assim poderia ir movimentando os pés para não os deixar arrefecer ainda mais, no entanto a chuva e o vento eram mesmo um enorme empecilho e mesmo que se encontra-se seca por dentro o ar frio que lhe entrava pelas extremidades do casaco, faziam-na sentir mais húmida que uma bola de neve.

O cansaço era visível. Tinha estado toda a semana a trabalhar e assim iria continuar. Os braços doíam-lhe, as pernas também sem falar na coluna. O dia tinha sido puxado, são todos, no entanto hoje, devido à folga da sua colega, os “serviços mínimos” tiveram de ser assegurados. Sendo a mais nova nesta unidade hospitalar de Lisboa, iria passar parte da noite de natal sozinha e a trabalhar.

Na terra onde nasceu e cresceu já há muito que a massa para as filhós estava pronta para a fritura e os sonhos já boiavam no enorme tacho de azeite quente à lareira em cima dos trempos. Estes ao sentirem que a massa já se encontra frita por um lado voltam-se sozinhos fazendo-a lembrar o verão, a praia cheia de gente que deitada na toalha se vira de acordo com a intensidade do calor. Toda a aldeia estava embebida de um inequívoco cheiro de iguarias regionais. Cada fogo possui a sua própria receita que para o comum dos visitantes é indecifrável no entanto são diferentes, e bem diferentes. Ao longo do ano pelo concelho daquela região do interior decorrem várias feiras que promovem esta gastronomia e há vários povoados de renome na sua confecção. Também o jantar já se encontrava pronto há algum tempo, cozido ao lume o tradicional bacalhau e as couves do quintal com batatas cozidas.

“… lamentamos informar que devido a falha eléctrica o comboio encontra-se 15 minutos atrasado…” as pessoa que se encontravam sentadas no abrigo, suspiraram incomodadas enquanto enroscavam as mãos bem no fundo no bolso dos casacos e escondiam o queijo no cachecol. O vento soprava agora com mais intensidade empurrando a chuva que se entranhava em todo o lado. Os guarda-chuvas eram impotentes. Mais uma vez Maria procurou a melhor posição junto do abrigo para se defender da chuva e do vento frio enquanto tentava controlar o pequeno guarda-chuva que já dava mostras de não resistir por muito tempo. Também suspirou. Os quinze minutos de atraso anunciados passaram agora para vinte, e os suspiros sucediam-se cada vez mais profundos, alguns já de raiva outros de lamentação e até os houve seguidos de algum praguejar.

A estação encontrava-se praticamente deserta. Com o adiantado da hora na rua não se via vivalma, apenas alguns carros seguiam calmamente o seu caminho. A inquetude apoderava-se de quem esperava pelo comboio e de cinco em cinco minutos a voz insípida que ecoava pelo altifalante, anunciava mais atrasos. Tirou a mão do bolso juntamente com o pequeno telemóvel e premindo um botão o ecrâ iluminou-se e viu as horas, eram já dez e meia da noite e ainda se encontrava longe de casa. Lembrou-se que teria de se levantar às seis e meia da manhã para iniciar regressar ao trabalho, teve vontade de chorar. Reparou que tinha 1 chamada não atendido, era dos seus pais, tentaram contatá-la à duas horas atrás. Retribuiu a chamada mas entretanto chegou o comboio e o barulho ensudecedor que o acompanhava levaram-na a desligar e a prometer que ligaria mais tarde. Entrou na carruagem praticamente vazia e sentou-se junto à janela. À sua frente ia sentado um jovem casal que se acarinhava e beijava como se o mundo fosse todo deles, como se estissem isolados do mundo sem ninguém a quem prestar contas. Virou-se para a janela encontando a cabeça e fechou os olhos.

Recordou a sua infância. Como brincava com o seus amigos da aldeia. Em pequena era parecida com os rapazes, gostava de jogar à bola de correr, de pular, de subir às árvores e de estar com eles. Até o seu cabelo tinha um corte masculino. Era apelidada de Maria Rapaz e não se importava. Era assim que gostava de ser. Nas tardes de natal adorava ir com os amigos à lenha para a fogueira que iria aquecer os pés ao menino Jesus mesmo à porta da Capela. Tiravam a carroça de varais da cabana, percorriam o bardo sem fazer barulho e saíam pelo portão sem que o avô se apercebesse. Percorriam distâncias loucas, pelas encostas acima e pelas encostas abaixo, em busca de cepas secas esquecida nos terrenos vizinhos, nos pinhais ou no mato. Só os mais pequenos à guarda dos irmãos mais velhos é que iam em cima da carroça, todos os outros faziam-na deslocar. Não havia nem burro nem macho nestas ocasiões. Uma vez carregada era despejada em monte junto à porta da Capela e ateada com a ajuda de carquejas e pinhas secas. Esta cerimónia era a mais esperada, a noite já avançava e o frio também já era muito quando ateavam a fogueira que os aquecia a todos dos pés à cabeça, por dentro e por fora. Mas de um dia para o outro tudo mudou. A sua percepção do Mundo alterou-se radicalmente e as brincadeiras que outrora eram indispensaveis agora eram insuportáveis. Maria tornara-se mulher.

Deixou cair em cima dos pés o guarda-chuva que tinha na mão, abriu os olhos sobressaltada e reparou que tinha chegado ao destino. Pegou nas suas coisas e saiu ainda meio zonza pelo sono. Continuava a chover. O vento era agora mais impiedoso, ao tentar abrir o guarda-chuva sentiu-o quebrar e voar ao longo da linha fugindo da sua dona. Desesperada levantou a cabeça em direcção ao céu e sentiu a chuva fria a cair-lhe no rosto. Baixou o olhar, aconchegou o casaco junto ao pescoço e seguiu decidida em direcção a casa.

Entrou em casa toda ensopada e a tremer de frio. Não sentiu o aconchego quentinho do lar pois a casa era bastante húmida, fria e vivia sozinha. Correu para a casa de banho, tirou as roupas completamente encharcadas de água e começou a tremer ainda mais. Ligou o ventilador no máximo e colocou-se à frente do ar quente que vinha do pequeno aparelho. Os seus lábios carnudos moviam-se sem que ela os estivesse a controlar e tentava aquecer o corpo com os braços cruzados, mas não estava a dar resultado. Ligou a torneira da água quente do duche e entrou na banheira. Encolhida sentia a água quente a bater-lhe nas costas e na cabeça, parecia um punhal que lhe era cravado no corpo, até que começou a aquecer e a habituar-se. Ao fim de alguns minutos já se sentia melhor mas as suas pernas não tinha reacção para deixar o chuveiro. Juntou a pouca coragem que lhe restava, fechou a torneira, envolveu-se na toalha e correu em direcção ao quarto. Rapidamente vestiu o pijama polar que concordou ter sido uma das maiores invenções até ao momento.

Através das paredes conseguia ouvir as vozes dos vizinhos e de mais gente que deveriam ser familiares, riam, riam e falavam alto e tornavam a rir mais um pouco. A festa estava animada. Baixou o olhar e lembrou-se de ligar para casa para falar com os pais. Pegou no telemóvel que apenas se encontrava molhado por fora e reparou que tinham tentado ligar de casa, retribuiu a chamada. O telefone tocou, tocou, tocou e nada ninguém atendia. Lembrou-se de ligar para o telemóvel do pai que desde que o comprara passara a ser o seu melhor amigo, mas nada. Em casa não havia rede, a algazarra era total. Os sobrinhos que há bem pouco tempo tinham aprendido a falar moviam-se freneticamente pela casa e o sossego era palavra desconhecida. Já tinha sido o substantivo mais identificativo deste lar, mas agora estava repleto de vida. De vida que se encontrava irrequieta, na cozinha junto à lareira, com medo de adormecer e não poder, desta forma, abrir os presentes. O barulho impedia que alguém a ouvisse. Tentou mais uma vez o telefone e nada. Estava só.

Estava cansada, triste e só na noite de natal. No dia seguinte, antes do sol se levantar tinha de se levantar para ir trabalhar. Sentia-se tão vazia que uma pequena lágrima surgiu da fonte dos seus olhos azuis e jorrou pela sua bochecha macia, a seguir outra … e outra. Deitou-se na cama tapou-se e escondeu-se debaixo das mantas como que para evitar que os seres ausentes não a vissem a descarregar toda a água armazenada no saco lacrimal.

Por entre este estado de abatimento e submissão ouviu o telemóvel vibrar em cima da mesa-de-cabeceira. Um SMS tinha acabado de entrar na sua caixa de mensagens. Recompôs-se um pouco, lutando contra parte do seu corpo que se sentia vencido e pegou no telemóvel. Limpou a cara com as mangas da camisola do pijama e abriu a mensagem. De repente os seus olhos começaram a brilhar, o seu rosto rejuvenesceu-a e esboçou um sorriso confidente. Apenas cinco pequenas letras foram suficientes para a transfigurar. “Amo-te”. Retribuiu a mensagem a alguém e deitou-se agora em paz e sossego. Lá fora as estrelas brilhavam agora com maior intensidade.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Palpitações


Tudo se move. Nada permanece perenemente no seu lugar. A rocha move-se com o vento, a água com a corrente, o homem com a mente, a vida com um sopro.

Ficar no mesmo lugar é não sentir. É não ouvir. É a indiferença pelo que se move, pelo que tem vida, pelo que segue o seu caminho. Nada nem ninguém pode ficar indiferente ao que nos reserva. Tudo o que sentimos está escrito no infinito, tudo é premeditado, mas ninguém consegue desvendar a força superior que tudo controla, que tudo subjuga e nos move como marionetas. Os cordelinhos podem ser fortes e firmes e desta forma conseguem superar a maior das tempestades, mas também podem ser fracos e suaves e voar com a leve brisa que por vezes se faz sentir durante o amanhecer.

O cenário em que nos movemos é compassado pelo som do efémero órgão da vida. Todo este palpitar é observado por entre a íris de todo o ser vivo. Os seres não vivos não possuem íris no entanto o seu palpitar é superior a qualquer outra das forças. A sua natureza é bem mais feroz e atroz que qualquer objecto desenvolvido pelo homem. Nada lhes consegue fazer frente nem nada se atreve.

É esta natureza que faz mover o mundo. Foi esta natureza, ou ser superior, como lhe queiram chamar, que lhe deu vida com um ligeiro sopro e um dia será esta, que da mesma forma, transformará toda esta matéria em triliões de grãos que areia levados pelo vento.

Será que algum dia iremos perceber isso?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

E se dúvidas houvesse!!!

O fundador e nove membros da IURD são acusados de usar dinheiro dos fiéis

Era sempre assim. Quando a música baixava e os apelos do pastor deixavam de se ouvir, os fiéis levantavam os joelhos do chão para depositar o dinheiro no altar. Lá fora, as dúvidas permaneciam. Durante 32 anos, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) rejeitou todas as suspeitas de corrupção, mas elas nunca desapareceram. Agora colaram-se à instituição para sempre. O Ministério Público de São Paulo acusou o fundador, Edir Macedo, e outros nove membros de associação criminosa e lavagem de dinheiro.

As três décadas de história da IURD contam-se com somas milionárias, multidões de fiéis, discursos inflamados e, sobretudo, suspeitas. Logo em 1977, uma inspecção da Receita Federal sugere que a igreja deve perder a imunidade fiscal porque está a ser usada para ganhar dinheiro - segundo a Constituição do país, o património e as fontes de rendimento das igrejas só podem ser utilizados para actividades religiosas e nunca para a obtenção de lucro. Uma década depois, a mesma instituição elabora um estudo para regulamentar as doações de dinheiro relacionadas com a fé. A proposta nunca foi aprovada.

O VÍDEO DO DÍZIMO Outras dúvidas são levantadas quando, em 1995, Edir Macedo surge num vídeo a ensinar aos pastores como pedir dinheiro aos crentes. "Se você se mostrar chocho, o povo não confia em você. Você tem de falar como se fosse o super-herói do povo. Peça, peça... Se houver alguém que não dê, há um montão que vai dar", explicava com uma exuberante coreografia de braços.

Desde que o vídeo foi divulgado, a instituição foi exaustivamente investigada, mas pouquíssimas irregularidades ficaram provadas nos dez processos que foram instaurados.

O Código Penal brasileiro não inclui práticas religiosas. Se alguém quiser doar todo o seu património à igreja, tem toda a liberdade para o fazer. Assim, para condenar os líderes da igreja, um objectivo era fundamental: provar que o dinheiro doado estava a enriquecer os líderes da igreja e não a financiar obras de caridade.

Era preciso descobrir o percurso do dinheiro desde que saía dos bolsos dos crentes até ser usado para pagar a construção de uma mansão de 6000 m2 (como a construída por Edir Macedo em 2007). É isto que, após dois anos de investigação, os procuradores acabam de conseguir. Entre 2001 e 2008, a IURD recebeu mais de 3 mil milhões de euros doados pelos seus 8 milhões de seguidores. Metade do dinheiro foi colocado na caixa do dízimo dos templos, a outra metade chegou através de 4015 transferências bancárias. Nenhum deste dinheiro pagou impostos.

EMPRESAS FANTASMA Alguns destes milhões foram depois utilizados em pagamentos a duas empresas-fantasma: a Cremo Empreendimentos e a Unimetro Empreendimentos. Só em 2004 e 2005, estas empresas (que não prestam um único serviço) movimentaram 27 milhões de euros, garantiu à revista "Veja" fonte da Secretaria da Fazenda.

A paragem seguinte destes milhões eram duas empresas sedeadas em paraísos fiscais nas ilhas Caimão e nas do Canal (a Investholding e a Cableinvest). Sob a forma de empréstimos a executivos da IURD, o capital regressava depois à terra natal para ser aplicado na compra de aviões particulares (como um Cessna de 1 milhão de euros), mansões ou para ser investido no império que a igreja construiu na comunicação social - 22 canais de televisão e 42 estações de rádio.

Edir Macedo é hoje dono de 90% da Rede Record (a mulher possui os outros 10%), que foi comprada em 1992 por 20 milhões de dólares. Além disso, tem dois apartamentos de luxo na sofisticada Collins Avenue, em Miami. Um foi comprado por 1,5 milhões de euros e o outro por 3,3 milhões. Em 2007 construiu uma enorme mansão de 2000 m2 em São Paulo, em Campos Jordão. É lá que parte do tesouro da IURD estará enterrado.

In ionline, por: Alexandre Soares, Publicado em 21 de Agosto de 2009.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Os verdadeiros Tomb Ryders


No séc. XVIII, Edimburgo era um dos maiores centros de estudos anatómicos. Muito se deveu ao Dr. Robert Knox que privilegiava o estudo prático em corpos humanos verdadeiros. Era alimentado pelos cadaveres dos condenados à morte. No entanto a "oferta" não era a suficiente sendo que o pagamento por cada cadaver era aliciante, para que os seus alunos pudessem desenvolver as suas capacidades da forma mais realista possível.

Não havendo matéria prima suficiente começaram a surgir verdadeiros tomb ryders que exumavam os corpos logo após a sepultura e os vendiam. Rapidamente os familiares dos defuntos formaram milícias para vigiar os cemitérios e os corpos para estudo voltaram a escassear.

Até que dois irlandeses, William Hare e William Burke, se lembraram de nutrir a anatomia com corpos de pessoas saudáveis. Para não se levantarem suspeitas da causa da morte, as vítimas eram embriagadas com whisky e depois asfixiadas de forma a não deixarem vestígios. Depois de 16 vítimas foram capturados e condenados. Também Knox, vítima ou não, caíu em desgraça bem como o seu curso de anatomia.

Tudo isto foi possível pois não havia na altura nenhuma legislação relacionada com o uso de cadaveres para estudo da anatomia.

Em 1832, no seguimento destes actos macabros, surge o Anatomy Act, promulgado pelo Parlamento Britânico, segundo o qual passou a ser permitido o uso de cadaveres não reclamados pelos familiares para o ensino da anatomia.

Este princípio ainda vigora em muitas sociedades.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

William Walace


Por estes dias fiquei a conhecer uma civilização nova. Não nova no sentido de ter surgido ou que tenha sido descoberta recentemente, mas no sentido de que não me recordava de alguma vez ter ouvido falar sobre ela. Os Picts foram os ascendentes dos Escoceses. Antes da Independência da Escócia, que aconteceu em 1320, as terras altas eram habitadas por estas tribos. Por esta altura, uns anos antes, William Walace conseguira unir algumas destas tribos para expulsar os ingleses que a pouco e pouco iam subindo para norte. O Gigante Cavaleiro Walace e mais tarde o seu sucessor e futuramente Rei da Escócia Robert The Bruce conseguem fazer ver aos Ingleses que não conseguiriam combater em 2 frentes e ter sucesso, pois a sul os franceses estavam determinados em reclamar todo este território como seu. Assim foi conseguida a independência da Escócia.

O filme Braveheart, realizado e protagonizado por Mel Gibson, imortaliza através do cinema este passado. Há algumas imprecisões neste filme, como as há em praticamente todos os filmes históricos. As mais notadas são o facto de William Walace ser de uma enorme estatura com cerca de 2 metros de altura, naqueles tempos acreditem que era muito mesmo. Os trajes que vestia no fime não condiziam com a sua posição pois William era um Cavaleiro e usava sempre armadura. Por outro lado a Princesa francesa Isabella, que no filme se apaixona por William, não teria mais de 15 anos na altura. Também não há indícios de pintarem a cara na altura mas sim muitos e muitos anos antes quando os Vikings passaram pelas Highlands.

Uma última curiosidade sobre o filme, William Walace foi traido por um dos seus numa taverna em Royston (agora parte de Glasgow) e foi condenado e executado de forma atroz em Londres, o Cavaleiro em causa era Sir John De Menteith. Não sei se alguma vez se questionaram porque é que os lagos na Escócia são designados por Loch e não por Lake, Loch em Gaélico significa Lake em Inglês, e os Escoceses orgulhosos das suas origens não querem perder a sua lingua ancestral e continuam a utilizar o Gaélico diariamente. Mas há uma excepção curiosa, o lago Menteith é o único que é designado como Lake Menteith como forma de repúdia e desonra à traição de Sir Jonh de Menteith sobre William.

O Guia Turístico e o Condutor

Há alguns dias atrás estive em Edimburgo a passar alguns dias das minhas férias. Foram 3 dias bem passados. Tenho um primo que de momento se encontra neste chuvosa cidade (são raros os dias do ano em que não chove) a realizar o Doutoramente e foi bastante prestável e amigo como um bom Beirão que se preze. Bruno não sei como te agradecer! Pela disponibilidade e pela companhia sempre afável! Se algum dia precisares de algo já sabes onde bater!

A cidade não é grande para uma capital, mas é maravilhosa! Como a maior parte das grandes capitais europeias também possui vários séculos de história. Em termos de habitantes possui menos de 500 mil habitantes o que é muito pouco se compararmos com Glasgow que possui cerca de um milhão e meio sem contar com os arredores e isto numa população total de cerca de 5 milhões de habitantes... é obra sem dúvida!

O transporte mais utilizado, dentro da cidade, nestes dias foi o dos sapatos. Como não tinhamos prometido nada a ninguém e ninguém dependia de nós, andámos, andámos e andámos mais um pouco!

Bem, mas o que pretendia primeiramente dar relevo nestas linhas era o passeio desenfreado que demos de autocarro durante um dia pelas Highlands em direcção ao Loch Ness. O Monstro por estes dias não se avistava por lá mas deixou-nos imensas recordações suas nas Gifts Stores a troco de algumas Libras. Há quem desconfie que é apenas um Mito! Mas para os comerciantes locais ele existe mesmo!

O Sr. Adrien, que como bom escocês usava orgulhosamente o seu magnífico kilt, e o Sr. Alex foram os nossos tutores durante esse dia. Fomos avisados assim que entrámos para o autocarro que se, no final do dia, a viagem não tiver valido a pena eles gostariam de ser recordados como John e Fred. Esta foi a primeira das muitas gargalhadas interiores que todos nós esboçamos.

Confesso que não me recordo de ter aprendido tanta coisa sobre história num só dia, durante os muitos anos de estudante. O que é pena! Mas também não me recordo de ter tido um docente de história tão sui generis como este escocês de kilt.

Sem dúvida alguma que estes 2 promotores locais serão sempre recordados na minha memória como Adrien e Alex!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Unplugged!




Temos muito que aprender! Lembro-me de uma frase que ouvi vezes sem conta quando era seminarista no seminário das Missões na pequena vila de Cernache do Bonjardim: "O Saber não ocupa lugar". Confesso que não tenho sido fiel a esta máxima! Desinteresso-me por vários temas e assuntos! Gosto de acreditar que a razão principal é a de ser realista! Sei que por mais que me esforce nunca conseguirei dominar todas as áreas do saber, mesmo que sejam apenas pequenos pormenores… fascina-me o mundo da informática, da gestão, da saúde… mas quando me falam em programação, equações, fármacos… o meu cérebro começa a ficar inquieto, nervoso, impaciente e apenas quero desligar o interruptor!

A Princesa dos Mares

Foi naquele dia que tudo aconteceu. Era tarde, o sol já se tinha deitado por trás do horizonte aconchegado pelo mar azul. As ruas estavam desertas, a praia também. A areia já não queimava os pés descalços nem o vento dificultava a respiração como durante o dia, altura em que o astro rei reinava sobre todo o universo.

Não houve testemunhas que pudessem relatar os factos acontecidos, que espalhassem o acontecimento ao vento, que impedissem que este momento se tornasse num segredo. No seu grande segredo! Mas havia testemunhas! Sim havia testemunhas silenciosas, e muitas… em cada recanto havia espectadores, em cada duna havia quem esperasse por aquele momento, vinham de todo o lado, muitos surgiam do nada! Apareciam de debaixo das pedras, da areia, do mar e do ar…

Moveu-se para a direita para encontrar a melhor posição para vislumbrar o grande momento, o momento por que todos esperavam. Era já quase como que uma rotina! Em dias de maré baixa, naquele recanto da praia algo acontecia que só eles percebiam. Só eles adoravam aquele momento, era o seu totem!

E heis que empurrada pelas ondas da noite inicia o espectáculo! As antenas tateantes utilizadas vezes sem conta para fazer o reconhecimento do percurso param para este momento, as aves que ficaram acordadas até mais tarde fora do seu peloiro e que aproveitavam para cear pararam tudo para assistir ao momento, também os pequenos e os grandes caranguejos a fitaram com se fosse a primeira vez.

Era a princesa dos mares que Nemo enviava deslizando agora pela areia, para aquela praia. As suas formas deliciavam todos os presentes, ninguém se mexia nem fazia barulho temendo sua alteza se assustasse e desaparecesse pelo imenso azul. Apetecia-lhe chegar-se junto dela e tocar-lhe. Talvez esse pequeno gesto o transformasse num semelhante dela ou a ela num seu semelhante, mas ao olhar para os seus longos tentáculos baixou a cabeça e suspirou!

A princesa com as suas formas límpidas e perfeitas manteve-se com o dorso virado para a areia numa das suas inocentes poses sensuais com o olhar no universo! Parecia contar as estrelas, ou então memorizava-as, ou mesmo ainda comunicava com elas. Ningém sabe, mas algo de mágico se passava e era isso que a mantinha durante muito tempo naquele lugar, naquela posição, na areia e na noite. Até que, por fim, se levantou leve e como que absolvida dos seus pecados se dirigiu para as ondas e pouco a pouco os seus contornos de perdição foram desaparecendo envolvidos pela água e pelo sal. Lá longe, com a ajuda da cauda já em escamas, desapareceu e por último os seus longos cabelos loiros!

A praia ficou suspensa num último suspiro!

quinta-feira, 5 de março de 2009

O País das Lamentações!




Era uma vez um país à beira mar platando. Um país onde todos vivem a sua vida. Onde todos possuem um espaço que podem chamar de seu, pelo menos enquanto as instituições de crédito não reclamarem o que lhes pertence e que foi ganho arduamente. Rico em vontade e em inteligência. Todos sabem o que é melhor para o outro, assim como que uma espécie de tentativa de subjugação...

Além das inúmeras qualidades dos seres deste país há uma que é hunânime. É a da lamentação! Um bom e digno habitante deste país tem de saber lamentar-se, não essa lamentação tipo lamechas que ninguém liga mas uma lamentação que enche o olho. Que leve o outro a lamentar-se da nossa própria lamentação! Que o sensibilize ao ponto de lacrimejar. O mais engraçado é que essa lamentação cresce em proporção do respectivo poder. Só desta forma se consegue compreender como é que os afortunados estão cada vez mais afortunados!

O dia das lamentações começa bem cedo, ainda em sonhos! "Como é que foi possível aos Inspectores da Segurança e Higiéne no Trabalho passarem pela minha empresa a uma hora em que não estava para os receber?". Ao levantar, "como é que é possível eu ter de levar os miúdos à escola se tenho muito para fazer?", "como é que um empregado só fez isto se está provado que este trabalho se faz em muito menos tempo?", como é que o governo nos taxa a nós se somos nós que pomos este país a andar para a frente?", "como é que… como é que…"

Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção!

Palavras lançadas ao Vento!



Palavras que não vejo, palavras que não ouço, palavras que não alcanço. Tudo são palavras… a terra, a areia, a casa, o amor, a morte são palavras antes de tudo. Têm peso, quando são arremessadas sem pensar, pois não estamos à espera, e dóem… sim… dóem como se fossem pedras! Não deixam vestígios à flôr da pele mas sangram como rios que descem das montanhas em direcção ao mar. As outras são leves, não ferem, suscitam talvez alguma sensibilidade mas são quase sempre lançadas ao vento!

sábado, 27 de dezembro de 2008

Switzerland aqui vou eu!



Se houver um prémio para uma das coisas mais loucas que fiz na vida até ao momento esta estará na luta. O Verão ainda não tinha chegado mas as férias de Verão estavam a começar. Foi em Junho, na viragem do século. Andava aborrecido. É verdade. Só de pensar nas férias sentia-me mal. Mais um ano passado e mais umas férias a trabalhar no duro, seis dias por semana, para poder continuar a estudar outro ano. Era sempre assim, desde os meus treze anos que trabalhava, que trebalhava no Verão para poder estudar mais um ano. Já estava cansado. Ano a ano seguia o meu caminho, mas não suportava pensar nas férias. Neste ano passei-me completamente e logo que tive conhecimento que um colega de infância, que emigrara para a Suiça, estava por cá fui falar com ele. Acertei alguns pormenores com um familiar que também se encontrava lá perto e fiz-me à estrada com o meu amigo. Em pouco mais de uma semana tratei de tudo, malas, passaporte... e pouco mais... no dia a seguir ao último dia de aulas, foi numa manhã de sábado, dia dez se a memória não me falha, partímos estrada fora.

A viagem para mim foi uma autêntica novidade. Era a minha primeira grande viagem nos meus vinte e dois anos de vida. Não é nada de especial se pensarmos que por exemplo o meu pai partiu para angola com dezasseis anos. Para mim era. E muito. Era algo que apenas eu queria fazer e fi-lo do princípio ao fim. Aquilo que mais me impressionou nesta viagem para além das belas paisagens e dos enormes aglomerados populacionais que íamos passando foi a qualidade das estradas. Sempre que passavamos uma fronteira sentía-se logo a diferença, para melhor. A viagem correu sem problemas, o carro portou-se bem, o condutor também. Parámos várias vezes, ora para beber café, ora para abastecer o carro com combustível, ora para pagar a portagem. Não parámos para comer, não havia tempo... íamos comendo e andando. Apenas me recordo de termos parado uma vez para descansar, foi numa altura em que o meu companheiro já se sentia muito cansado e decidiu encostra para descansar 2 ou 3 horas não mais. Ao fim de muitas horas de viagem já só via estrada à minha frente. Ao fim de muitas autoestradas em que só víamos rectas pela frente a determinada altura quando surgia uma curva tínha de parar para pensar se realmente era uma curva ou um fruto da minha imaginação. Era assim que me sentia e era apenas o pendura, nem queria imaginar como se sentiria o meu amigo que conduzia há já muitas horas! No total foram cerca de vinte e duas ou vinte e três horas de viagem a uma velocidade que com a vontade de chegar ao fim de mais uma recta, de mais uma autoestrada, de mais uma povoação, de mais um país, era proibitiva mas prefiro nem falar disso.

Assim quando chegámos à fronteira, entre a França e a Suiça, na zona de Genéve, já nos sentíamos quase no nosso destino. Aí começaram os problemas. Eu trazia a lição bem estudada. Teria de dizer aos militares suíços que se encontrariam a controlar as entradas no país que, como não possuía uma cópia de um contrato de trabalho, vinha de férias. Mas qualquer militar naquela função compreenderia que um português nunca iria passar três meses de férias num país com um nível de vida muito mais caro. Apenas queriam evitar que eu fosse mais um que fosse desestabilizar a ordem e o progresso locais. Já havia muitos alertas nessa altura. Na Suiça já se notava que não era o que tinha sido anos atrás, um país com uma elevada prosperidade. Lembro-me de dizer mais tarde com alguma vaidade, a alguns colegas de trabalho, que a taxa de desemprego na altura em Portugal era uma das mais baixas da União Europeia, e era mesmo, enquanto que a da Suiça era bem superior. Estávamos então na fronteira a aguardar. Enquanto víamos entrar viaturas familiares. Confesso que temi que não me deixassem entrar e não deixavam, a minha sorte foi que tinha comigo o contacto telefónico do meu familiar e prontamente ligaram-lhe. Confirmada a nossa mentira deixaram-me entrar na condição de ter de me apresentar quando fosse solicitado, juntamente com o meu familiar numa junta conforme desigando pelas autoridades, apenas para garantir que estava à responsabildade de alguém e que não andava por lá à deriva, pronto para me tornar em mais um problema.

Primeiramente fiquei na casa desse meu familiar e assim que tive nas mãos um contrato de trabalho assinei-o e comecei a trabalhar. Era um hotel de quatro estrelas, com piscina interior aquecida, sauna, banhos turcos e muitos outros luxos. Passei a morar no hotel, num pequeno quarto com poucas mordomias, uma cama uma cadeira um guarda-roupa, um pequeno frigorífico no qual apenas guardava uma garrafa de água e chocolates, montes de chocolates e "la piéce de résistance" uma varanda com uma mesa e duas cadeiras de espalanada. Passei boas tardes a ler e a houvir música nesta varanda. Situava-se em Sigriswille, a uma hora da capital Berna, no sopé das montanhas. Todos os dias chegavam autocarros de pequenos homens e mulheres que ninguém compreendia quando falavam. Sempre cheios de malas e máquinas fotográficas para captarem todos e mais alguns momentos para mais tarde recordar. Os clientes asiáticos eram mesmo em maior número, tudo por causa das montanhas. Todos queriam ver os Alpes. Todos se encontravam de férias.

A autoestrada

Sou um sortudo. Cresci numa pequena aldeia deconhecida no mapa. Surgem como do nada na IC 8 algumas habitações que se mantêm por cerca de 3 ou 4 kilometros. São várias aldeias que se agarraram à autoestrada com unhas e dentes e aí permanecem. Há já vários anos que se fala que tem os dias contados que vai ser desviada para oeste, para leste, para noroeste... sei lá! Já são tantas versões. Mas ela continua lá e as pequenas aldeias teimam em não a abandonar. São nestes míseros 3 ou 4 kilometros que a determinada altura, no meio de uma curva aparece-nos um cruzamento que nos leva à minha aldeia. Não me recordo do último casal que aqui se estabeleceu. Provavelmente o polícia que trabalha na cidade mais a mulher. Sim acho que foram eles! Nestes meus trinta anos de vida apenas me recordo deste casal... muito provavelmente alguns familiares virão passar aqui a reforma. Não é muito grande, nunca o foi. Neste momento deve ter cerca de vinte e cinco a trinta casas habitadas.

A minha sorte tem a ver com isso mesmo. Conheço toda a gente. Não quero dizer que fale com todas as pessoas abertamente e da mesma forma, mas que as conheço e elas conhecem-me. Nunca nos sentimos a sós. E por vezes o tempo pára. Pensem viver num sítio onde o tempo pára. Já imaginaram? Então imaginem que estão na vossa casinha no campo com um terrenozinho por perto, vosso, ao ar livre a respirar em plenos pulmões e que de repente nada mais existe e o tempo pára! Se alguma vez conseguirem fazer isto acreditem que só assim é que vão sentir-se realmente em casa. Toda a gente me conhece e eu conheço toda a gente.

Cresci com os meus irmãos na brincadeira, na rua e com os meus amigos. Na escola os meus amigos eram os mesmos do dia a dia, das minhas brincadeiras da rua... Todos nós crescemos e seguimos o nosso caminho. Alguns sairam de lá e raramente regressam. E quando regressam a desculpa é a dos pais. Quando estes partirem também vão deixar de vir por muitos anos até que um dia mais tarde vão regressar de vez, para passar a velhice na calmia da sua casinha e do seu terrenozinho perdido junto ao IC8.

Alguns não terão essa sorte. Recordo com saudade alguns dos meus amigos que numa madrugada de sábado à noite se despistaram nesta autoestrada que não fala. Que não soube explicar aos seus pais, amigos e familiares o que aconteceu naquela noite. O certo é que de cinco amigos dois deles deixaram-nos nessa noite fria. Dos restantes, um ainda se pode ver pelas ruas de uma aldeia vizinha a deambular apoiado em canadianas, pois nunca mais recuperou o controlo dos movimentos motores a cem por cento e a destreza psicologica também nunca mais será a mesma. O único que saíu ileso deste terrível acidente foi levado no mês passado. Era da minha idade. Acompanhou-me durante o seu percurso escolar, antes de abandonar os estudos. Levaram-no como um anjo, no seu sono. No local onde sempre viveu depois de vir de França com o pai emigrante, em sua casa, junto à autoestrada.

Os Filipes foram sepultados ao lado um do outro. Não foram esquecidos pelos amigos da sua e da minha aldeia. Na sua campa podem encontrar uma placas dos amigos do Estevês. Ainda lá estão e sempre continuarão como eram. Amigos. O mais velho ainda o estou a ver com aquele sorriso de conquista quando comprou a viatura assassína, com o suor do seu trabalho, sem recurso a ajudas. O mais novo costumo acreditar que de certa forma fui uma influência positiva na sua vida, pois já depois de eu ter saído do seminário, entrou para o mesmo sítio. E lá permaneceu durante alguns anos. Era adorado e amado por todos. Era um anjo com aqueles cabelos encaracolados e sorriso que conforme se abria fazia com que os olhos se fachassem pouco a pouco. Bem, para estes três grandes amigos apenas desejo que se estejam a divertir onde quer que estejam e que quando for a minha vez que me acolham para participar também nas vossas brincadeiras.

Um abraço!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

As Boleias

Em pequeno não tinhamos transporte para nos deslocarmos em família. Os avós maternos sempre viveram na mesma casa que ainda hoje se mantém em pé. Velha, húmida, sem casa de banho, caiada, e há já largos anos que começou a deteriorar-se. Agora serve apenas como loja de apoio. Muitas foram as vezes em que me aquecia junto à lareira com os meus irmãos e primos enquanto as nossas mães e avós migavam a carne. Os homens que tinham desmanchado o animal pela tarde colocando a carne com gordura num alguidar de um lado, a carne sem gordura noutro, e era pouca, a parte da gordura pondo de parte o toucinho para salgar, era colocado num outro maior que serviria para encher as farenheiras, a grande companhia das couves durante o inverno, estavam agora à conversa. As matanças eram das poucas épocas em que a família se juntava quase toda naquela pequena casa. Não me recordo de outras noites em que tivesse tanta vida. Depois da morte dos meus avós nunca mais lá entrei. O meu tio a quem calhou em sorte a casa transformou-a no local de apoio para as suas ferramentas da lavoura. O pátio continuou a albergar caprinos juntamente com alguns ovinos...

Os meus avós paternos viviam longe. Muito mais longe. A perto de 2 horas de distância. A pé. Passando pelos campos desertos. Não foram muitas vezes, mas fizémos este percurso para irmos ter com a família, à tarde, depois de a matança estar consumada com a ajuda dos meus tios. No regresso vinhamos todos de mota. Na velha zundap 4 que o meu pai comprou quando veio de ultramar. Com cuidado perseguia a fraca luz que corria à frente da mota, com todos os 5. Eu ao colo da minha mãe e encostado ao dorso do meu pai, o meu irmão do meio sentado em cima do depósito da gasolina e o meu irmão mais velho atrás agarrado à minha mãe. Não foram muitas vezes, pois conforme íamos crescendo deixámos de caber todos na pequena mota que soava pela noite com os pneus bem espalmados. Assim a partir de determinada altura o meu pai tinha de fazer 2 viagens para colocar toda a família em casa. Sinceramente não sei por que ordem nos levava, mas presumo que por ser o mais sossegado viria sempre em último lugar enquanto a minha mãe aguardava em casa com um dos meus irmãos.

Não sei como, nem com quem aprendi ou perdi a vergonha de pedir boleia. Talvez através da televisão, mas sinceramente não consigo precisar. Nos meus tempos de seminarista no Seminário das Missões, em Cernache do Bonjardim, vim várias vezes à boleia para passar as férias do natal ou outras festividades a casa. A imagem que mais me marca foi quando descia a estrada, junto à casa dos meus pais com uma pequena, porém grande para mim pois tinha 13 ou 14 anos, mala de cartão por vezes à cabeça outras quase de zazorro. Na verdade trazia coisas que não precisava, no entanto precisava de trazer algo para sentir que vinha de longe para ver a minha família.

Era um risco. Não vinha sozinho. Tinha um amigo que apanhava boleia comigo e que ficava a meio caminho. Com ele fazíamos cerca de 20 km à boleia e depois seguia sozinho para Proença-a-Nova de onde apanhava o autocarro para a minha aldeia. A sua chamava-se Vale do Pereiro, perto da Sertã. Marco Paulo se algum dia leres estas linhas espero que ainda te lembres dos nossos bons tempos de seminaristas. Um abraço!

No total eram perto de 50 km que fazia sozinho com aquela tenra idade. Sem medo, despreocupado, inocente.

Mais tarde tive outra grande aventura. Quando a recordo penso que ninguém o faria nos tempos de hoje com 15 anos. Pelo menos com autorização dos pais. A minha mãe e os meus irmão encontravam-se na apanha do tomada durante as férias escolares do Verão no Vale de Santarém. Como as minhas aulas tinham terminado mais fui ter com eles. Lembro-me que o meu pai me colocou no comboio em Vila Velha de Rodão com a indicação de sair na estação de Santarém e para depois apanhar um taxi para me juntar à minha mãe e aos meus irmãos. Era o segundo verão que passava as férias no Vale de Santarém. Ao sair na estação, junto ao rio Tejo, subi a encosta até ao centro da cidade pois nenhum taxi parou ao passar por mim. A noite estava a chegar. Atravessei toda a cidade tomando a direcção do Vale e ignorei todos os taxis que me tinham ignorado minutos antes. E pedi boleia. Já de noite. Hoje penso que tive sorte. Alguém sério me deu boleia e me levou ao destino, ainda me recordo da cara do homem um pouco incrédulo, no entanto eu estava confiante...

As últimas vezes que fiz viagens à boleia ocorreram três ou quatro anos mais tarde, quando me encontrava no Superior em Portalegre. Vinha praticamente todos os fins-de-semana a casa. Não me recordo de fazer muitas viagens de autocarro. O preço do bilhete era bastante elevado para um estudante como eu! Cada viagem era uma aventura diferente. Sempre sem problemas.

Hoje olho para trás e por vezes nem quero acreditar nesses tempos. Porque será que temos medo do presente? Será que as pessoas de hoje são assim tão diferentes das de à 15 ou 20 anos atrás? Ou será que somos nós que as fazemos assim?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Herói

Sou um herói. É verdade sou um herói com super-poderes. Não me recordo quando tive a primeira percepção desta minha condição sobre-humana, mas desde miúdo que me vou apercebendo dia-a-dia de novos poderes. Poderes que, por vezes, não consigo controlar. Sinto-me sempre a flutuar. Passo o tempo todo a flutuar por entre vales e montanhas, ruas e cidades. Ninguém me detém. Sou livre e descomprometido, pairo no céu azul, nas profundezas da terra, enfim onde me sinta bem. Ontem por exemplo estive a flutuar por entre os mares da Somália. Não encontrei nenhum pirata. Talvez já estivessem a contar com a minha presença e não se atreveram a sair de casa. Anteontem estive nas favelas do Rio de Janeiro onde detive mais um tiroteio entre gangs. Esta noite talvez descanse. Provavelmente, irei para uma ilha deserta descansar à beira-mar, deitado na areia a sentir o sol a acariciar a minha pele lentamente. Sim, vou aproveitar para descansar.

Lembro-me de um dia em que uma velha, sim muito velhinha com pele enrrugada pelo tempo e pela vida, pelo sol e pela chuva, pelas alegrias e tristezas, me agarrou na mão e me puxou para junto dela. Que fazes aqui, perguntou-me. Pairo pelo ar à procura de alguém para ajudar, respondi-lhe. Olhou para mim e sorriu, depois desapareceu.

Um som agudo fez-me regressar. A minha rotina chama-me. O trabalho espera-me como todos os filhos esperam pelos pais quando termina a escola. Irrequietos e sem desculpas, apenas pontuais. Continuo a usar os meus super-poderes, ninguém me detém. Consigo mover todo o amontoado de papéis para o seu respectivo arquivo sem lhe tocar. Sem deixar uma única impressão digital, sem errar num único local. Consigo responder a todas as solicitações recebidas via e-mail só com o poder da minha mente, mais uma vez sem deixar nenhum rasto da minha passagem. Consigo evitar discussões e confusões apenas com o poder do meu olhar.

Mais tarde no regresso a casa alguém nos interpela no meio da rua, o dinheiro ou a vida, ordena. Lentamente levanto o braço e estendo a mão para o ajudar e um estrondo ecoa por entre a imensidão da noite. Fico parado. Por momentos o pobre também fica perplexo, incrédulo, imóvel. Mas, subitamente começa a correr e desaparece nas trevas. Quero voar para o alcançar e não consigo, quero correr para o alcançar e não consigo, quero mexer-me e não consigo. Caio para trás desamparado. Seguram-me a cabeça no ar, falam comigo. Começo a ouvir as vozes a afastarem-se, cada vez mais. A iluminação da rua começam a perder intensidade. Começa a surgir lentamente uma leve brisa que se vai espalhando por todo o ar. Com ela surge o nevoeiro. O nevoeiro começa a envolver toda a noite. As vozes soam cada vez mais longe. O eco na minha cabeça desaparece. As palpebras vão-se juntando como dois casais numa noite de inverno no seu leito.

E por fim, o breu envolve todo o nevoeiro e não volto a acordar!

Estou de volta!

É verdade. Estou de volta. Não prometo que seja de vez, mas pelo menos vou tentar ser mais regular.

Olhem à vossa volta e retratem o quem vêm. Digam-me o que sentem o que vêm o que tocam. Descrevam tudo, tudo mas tudo mesmo. Depois de fazerem sent garanto-vos que se vão sentir diferentes. Outros. Mais completos e mais felizes. Se tal não acontecer é porque não o fizeram com a convicção necessária, com o sentimento necessário, com a vontade que se esperava...

Digam-me o que sentem!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O Amigo Perfeito


O percurso era sempre o mesmo. Quer estivesse bom tempo, quer estivesse um frio de rachar ou até mesmo quando chovia, passava sempre pela mesma rua, pelo mesmo parque, pelo mesmo descampado contornando o bairro da Herdade, voltando a embrenhar-se pelos prédios até ao fundo da rua onde parava apenas por alguns momentos antes de abrir o portão e entrar no recinto preparatório. Era a sua rotina. Era a sua obrigação. Era a sua aventura. No verão atrasava-se com o calor, no Inverno com a chuva. Não adiantava castigá-lo, pois nunca chegava antes da escola abrir como todos os seus colegas que aproveitavam estes últimos minutos antes de entrarem para a divisão letrada para as derradeiras correrias, brincadeiras, desavenças e conversas.

Quando se aplicava as notas eram boas, mas estava sempre longe, noutro mundo, o que lhe dificultava a aprendizagem. O seu espaço era de encantar. Não havia professores, colegas bulhentos, necessidades, discussões… apenas um super-herói que protegia os mais fracos. Não era de carne e osso, dessa forma deixava de ser super. Não era como ele, dessa forma deixava de ser herói. Era tudo aquilo que não via nele. Tinham longas conversas e aventuras juntos. Ele como fiel e bravo companheiro do ser que nada temia, em contraposição com o guia que sabia tudo e que ninguém ousada enfrentar, pois logo era dominado pela força e agilidade dos seus poderes. Eram amigos inseparáveis, ou quase, pois era-lhe interdita a entrada no recinto. Era um super-herói nada sociável. Era a sua fraqueza, era a sua kriptonite. Nunca estava consigo nos recreios, o que o deixava vulnerável. Do lado de lá da vedação, seguia-o por todo o lado com o olhar, mas não se atrevia a entrar.

Terminadas as aulas, era o primeiro a sair. Se alguém o interpelava lançava rapidamente que o esperavam lá fora. Nunca viam ninguém. Assim lá seguia ele para casa pelo mesmo caminho que tomara. Perigoso, certamente, mas os dois companheiros já estavam há muito preparados para enfrentar todos os perigos desta selva urbana e do parque selvagem. Mais uma vez, surgira da densa vegetação, o enorme animal a atacar com as suas garras sem fim, porém bastava um olhar e as garras se encolhiam. Seguiam de cabeça levantada ele sempre atrás do seu herói de cabeça erguida todo orgulhoso com a valentia deste.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Hoje paremos durante 04:03 segundos e escutemos!...

Lyrics

You cannot quit me so quickly
Is no hope in you for me
No corner ycould squeeze me
But Ive got all the time for you, love

The space between, the tears we cry
Is the laughter keeps us coming back for more
The space between, the wicked lies we tell
And hope to keep us safe from the pain

Will I hold you again?
These fickle, fuddled words confuse me
Like will it rain today?
We waste the hours with talking, talking
These twisted games were playing

Were strange allies
With warring hearts
What a wild-eyed beast you be
The space between, the wicked lies we tell
And hope to keep us safe from the pain

Will I hold you again?
Will I hold you...

Look at us spinning out in the madness of a rollercoaster
You know you went off like the devil in a church
In the middle of a crowded room
All we can do, my love
Is hope we dont take this ship down

The space between, where you smile and hide
Where youll find me if I get to go
The space between, the bullets in our fire fight
Is where Ill be hiding, waiting for you
The rain that falls splashed in your heart
Ran like sadness down the window into your room
The space between, our wicked lies
Is where we hope to keep safe from pain

Take my hand
cause were walking out of here
Oh, right out of here
Love is all we need dear
The space between, whats wrong and right
Is where youll find me hiding, waiting for you
The space between, your heart and mine
Is a space well fill with time
The space between...

Space Between, by Dave Matthews Band.

terça-feira, 22 de maio de 2007

A Luta de Sepúlveda


Hoje apraz-me dedicar algumas palavras deste espaço a um dos melhores escritores contemporâneos. Luis Sepúlveda de seu nome, Chileno. Reconhecido também como realizador, jornalista e activista. Impressiona-me a sua forma de expressar a realidade e a sua clarividência relativamente a temas da actualidade internacional que nos perturbam, mas que directamente pouco podemos impedir, como humildes peões que somos neste xadrez global. As suas exposições e alertas incansáveis, e acredito que o serão até para além do dia da sua morte, remoem e criam um nó no estômago de injustiça, de intolerância, de intransigência, de individualismo que nos colocam no centro do inferno.

A sua batalha iniciou ao lado do seu eterno amigo Salvador Allende, eleito Presidente da República de um Chile em crise em 1970, que afirma convictamente ter sido assassinado durante o golpe Militar em 1973 chefiado pelo “pulha” Augusto Pinochet.
Esse acto nunca foi e nunca será esquecido muito menos perdoado.

A sombra do velho pulha chamado Augusto Pinochet, Ramón Ugarte, Daniel López ou como queira auto-apelidar-se, persegue-me como uma maldição que, se é bem verdade que me alegra porque o velho rufião está a passar mal, também me incomoda como chileno, porque em Varsóvia ou Cracóvia, Lisboa ou Pisa, Póvoa de Varzim ou na minha querida Pietra Santa, as perguntas sobre o Chile terminam sempre referindo o velho vigarista.”*

Nos dias que correm estamos rodeados de vigaristas e pulhas que nada pensam pela humanidade pelo bem-estar geral, pela socialização dos povos, pela partilha, pela igualdade, pela justiça, pela paz, pela concórdia… pelo amor, pela liberdade! Apenas em si mesmos e nos seus interesses. Esta escória desculpa-se com a era do capitalismo, da concorrência, da competitividade, mas a custo de muitas liberdades alheias…

Talvez seja justo ressaltar que há brancos, negros e «gente de cor». Mandela é negro, resplandecentemente negro, luminosamente negro; pelo contrário, Condolezza Rice, Bush, Wolfowitz, Cheney, Rumsfeld, Negroponte, Aznar, Berlusconi, Blair, Powel e Le Pen são «gente de cor». De cor duvidosa.”*



* - in “O Poder dos Sonhos” 2006

Luis Sepúlveda

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Turismo!


Tenho seguido, o que não é muito difícil pois a toda a hora e em todos os serviços de difusão noticiosos este é o tema lucrativo do momento, um pouco à parte este caso que deixa perplexa a comunidade internacional devido à morosidade de resultados por parte da polícia Portuguesa.


Em primeiro lugar gostaria de saudar todo o trabalho e empenho da nossa polícia. Todos nós conhecemos alguns dos problemas dos nossos agentes e são sempre os responsáveis quando algo de mau acontece. Acreditem que também são humanos, pais de família, profissionais por isso trabalham, sentem, erram… Creio que nunca foi feito tanto pelos desaparecidos em Portugal como por esta menina Inglesa que se encontrava de férias, sozinha, fechada no seu quarto. Podemos pensar que estamos a ser injustos para com todos os outros desaparecidos! E estamos, porque todos os que são comunicados à Polícia Judiciária www.policiajudiciaria.pt/htm/pessoas.htm também merecem o mesmo empenho e sacrifício que qualquer outro ser humano.


Esta menina desapareceu num País que ultimamente se tem distinguido como um antro de oportunistas, de corruptos, de lenocínio, de drogas e agora como o jardim dos pedófilos. Temos todos esses problemas. É verdade! E muitos mais! Também é verdade! Mas quem não os tem? Às vezes pergunto-me porque é que quando se fala em pedofilia em Portugal se associe à Madeira e ao Algarve, de momento só me vem uma justificação. O Turismo! Estes são os locais que mais pessoas acolhem do exterior para uns bons dias bem passados nos grandes empreendimentos de luxo. Na sua grande maioria são britânicos, só para que conste.

De volta ao caso da pequena Maddie apenas quero registar que para nós portugueses é inconcebível que 1 criança fique em casa sozinha enquanto se janta, se passeia, se qualquer coisa… fora de casa. No caso de 3 crianças já nem classifico… Podem dizer que viam a porta do quarto, que iam verificar se estava tudo bem de meia em meia hora, mas 50 metros de distância num local de restauração durante o jantar! Sinceramente, na minha opinião, nem que as 3 crianças começassem a chorar ao mesmo tempo os pais se iriam aperceber.


Apenas para terminar fica um conselho a todos os turistas. Ouçam todas as precauções e normas vigentes no país que vos acolhem e cumprem-nas, caso contrário o melhor que têm a fazer é não saírem de casa!

terça-feira, 10 de abril de 2007

Gato Fedorento



Por acaso reparei num desses jornais diários que todos lêem no comboio, que os Gato Fedorento já subiram mais um degrau no reconhecimento nacional. A notícia fala de uma acção que a polícia teve de cumprir para salvaguardar a integridade física dos humoristas. Parece que conseguiram, muito à semelhança das vedetas de Hollywood segurança pessoal pública. E tudo isto porquê? Não sabe? Pois parece que há quem os confunda com os imigrantes. Meus amigos! É preciso que isto fique bem claro. ELES SÃO PORTUGUESES! Se há quem os ameace, como o mesmo jornal assevera, da mesma forma que muitos emigrantes o são. Fico a pensar que o melhor é que divulguem o seu bilhete de identidade por todos os media para que não haja confusões deste tipo!

O Partido Nacional Reformador chocou o país com um cartaz no Marquez de Pombal, que para muitos portugueses era no mínimo vergonhoso e humilhante e que manifestava uma opinião. Essa opinião, ainda que “umbigológica”, foi aceite democraticamente pela nossa sociedade. Será que neste país, onde a expressão de cada um é livre e ainda sem grandes interferências do estado (ao contrário dos Estados Unidos) não é possível um grupo de humorísticas, que já nos habituaram com o seu sentido de escárnio e maldizer de boa disposição não podem expressar a sua forma de ver o nosso, e seu, Portugal! Sem que seja intimidado pelo uso da força (tanto física como psicológica)?
Será necessário fazer ameaças contra alguém que à sua maneira opina e age sobre a sociedade onde se insere contra este marasmo de ideias latente?

Desafio-vos a contrapor estes rapazes da mesma forma, através da mente e não da força!

sábado, 31 de março de 2007

Os Inocentes



O senhor José Manuel era o treinador da equipa. Já com umas boas centenas de jogos à frente da equipa era o timoneiro que ia conseguindo levar o barco ao seu destino. Era o profissionalismo e o homem de palavra em pessoa. Propostas foram muitas, feitas por uns que lhe prometiam mundos e fundos, outros que não prometiam tanto mas que gostariam de contar com ele. Todos eles receberam e tiveram de se contentar com um redondo não. Por uma vez se viu tentado a aceitar uma de um escalão superior, mas ao medir os prós e os contras a primeira coluna elevou-se como uma pena. A família vinha sempre em primeiro lugar. Era carpinteiro de profissão. Aprendeu a trabalhar a madeira juntamente com o seu pai na oficina quase centenária que ainda continua todos os dias a funcionar. Apenas até às cinco da tarde, porque depois a troco de alguns trocos, dirigia-se às instalações de futebol local. Era a sua vida. Era a sua terra natal. Eram os seus amigos. Era a sua família. Era ali que se sentia bem. Para quê procurar outro lugar? Conhecia todos os jogadores mesmo antes de começarem a dar pontapés numa bola, mesmo antes de começarem a ir para a escola. Os seus pais quase todos tinham sido seus colegas, ou na escola ou na equipa quando jovem. E a sua ausência durante dez anos para jogar em escalões superiores e outros dez como treinador não afectaram estas amizades. Depois de conhecer bem a realidade do mundo do futebol voltou para a sua terra natal e de lá não mais saiu. Era respeitado por todos até o presidente não tinha coragem de o mandar calar quando por vezes, nas festas municipais, bebia um copo a mais. O que dizia era a realidade e vinda de uma pessoa experiente eram palavras sagradas… “…a nível regional é impossível manter um clube sem ajudas financeiras. É verdade! A publicidade, não tendo a visibilidade nem a projecção nacional não é muito produtiva e muita das vezes os acordos, sim porque por vezes os contratos não são celebrados pelas partes, nem sempre são cumpridos. A venda de bilhetes é uma fonte de receita e não passa disso, raramente (em muitos clubes regionais) é suficiente para pagar à equipa de arbitragem e ao destacamento da Guarda Nacional Republicana. E estamos a falar no escalão sénior, pois nos restantes nem vale a pela cobrar a entrada. Assim se as câmaras Municipais fecham a torneira, mesmo que seja para metade, de um momento para o outro, são os jovens os principais visados. Também é verdade que alguns clubes gastam o dinheiro mal gasto. Muitas propostas acima das possibilidades, promessas e aliciamentos a jogadores que escassas vezes se cumprem. Muitos deles são geridos por pseudo-dirigentes, percebem de tudo menos de contrabalançar a gestão desportiva com a gestão financeira de forma positiva. E o pior é estarem desprovidos de uma cultura desportiva que apenas dignifique o desporto e não que o torne cada vez mais vulgar. Estando no topo da hierarquia do clube deveriam realizar o papel de Big Brother, não apenas como vigilantes e controladores, mas principalmente como exemplo a seguir com atitudes sérias, honestas, responsáveis…” e continuava até se cansar, e a plateia não o interrompia, deliciavam-se com as suas opiniões. Mas isso é outra conversa que iria dar pano para mangas ou muita tinta neste caso!

sexta-feira, 30 de março de 2007

O Trigo e o Joio


Reparo que o Partido Nacional Reformador (PNR) tem nos últimos tempos alterado a sua linha condutora de actuação. Está cada vez menos tímido e cada vez mais atrevido. Por força do estado da Nação, cada vez temos mais estrangeiros entre nós e como não é feito nenhum controlo temos recebido o trigo e também o joio de muitas culturas, primeiramente de África, de alguns tempos para cá da Europa de Leste e agora da América Latina (Brasil). É verdade que muito do trigo que entra no espaço dito português se torna em joio, pois com os problemas económicos que possuímos, não há o trabalho desejado para todos. E a "necessidade aguça o engenho", sendo criados alguns grupos organizados, ou não, destabilizadores da ordem.

Compreendo a indignação de muitos destes partidários, e concordo que queiram manifestar as suas ideias, os seus pontos de vista, que queiram alertar o país e até certo ponto acordá-lo. O que não compreendo é como pretendem fazer a selecção dos imigrantes tipo "simpáticos" dos imigrantes prevaricadores? Se em toda a propaganda que manifestam generalizam o imigrante! Este é o maior erro. Com esta generalização como é possível um bom trabalhador emigrante ser reconhecido como tal se está marcado por campanhas xenófobas? Os nossos imigrantes não merecem isto! Se fizessem um estudo acredito que perto de 100% destes partidários possuem familiares espalhados pelos 5 continentes.
Agora o que não tolero de forma alguma é quando esta barreira é ultrapassada. Quando se passa para a acção propriamente dita! Isto é quando se tornam em justiceiros e à força tentam inculcar as suas ideias, ou à força impor ordem. Assim qual é o trigo e qual é o joio?

Fiquem com esta ideia: Será que amanhã não necessitaremos de sair do nosso jardim à beira mar plantado para satisfazer os nossos sonhos!

Deus vs Homem


Como primeira ideia deste espaço de reflexão gostaria de falar um pouco sobre a minha relação com o ser superior, que muitas pessoas veneram, escolhendo como forma de vida a sua adoração e seguir/ou tentar seguir os seus ensinamentos. Respeito esta forma de vida, aliás, respeito toda a maneira de estar que faça as pessoas sentirem-se realizadas desde que respeitem também as realizações do outro.

Condeno fanatismos em toda e qualquer vertente: Religiosos, julgo que não vale a pena dissecar esta questão tão badalada nos dias de hoje, mas atenção! Responder na mesma moeda não torna as pessoas diferentes...; Desportivos, neste caso deparamo-nos quase todos os fins-de-semana com situações lamentáveis, por vezes as confrontações são saudáveis (isto quando se conhecem os limites do bom-senso). Certas relações clubisticas são levadas ao extremo o que não dignificam as emoções emanadas a qualquer apreciador; Partidários, aqui para mim é-me complicado compreender como é que quando os governos apresentam as suas propostas relativas a qualquer situação, muitas vezes - o que acontece quase sempre - todos os seus deputados na Assembleia da República estão a favor, não havendo ninguém a pensar de maneira diferente, e os partidos de oposição, salvo excepções, estão todos contra, mais uma vez o conceito de máquinas automáticas prevalece; Amorosos, sim, porque o que não falta no mundo são acções loucas que se fazem por amor e que no fim têm repercussões desastrosas... Podia continuar com outros exemplos, porém julgo que a ideia de que "o que é de mais também enjoa" está passada.

Eu acredito no Homem! Compreendo que esta ideia seja difícil de compreender, mas continuo a acreditar. Todos os nossos problemas, de raças, religiosos, saúde, ambiente, conflitos, guerras..., só podem ser ultrapassados de uma forma. Digam o que disserem não é a Divina Providência que os irá resolver, também não será um homem só que os resolverá, se bem que alguns têm nas suas mãos a chave que poderá fechar ou abrir as portas consoante a direcção que deveriam tomar. Por vezes fecham as que deviam abrir ou abrem as que deviam fechar! No entanto este homem, único, em conjunto com outros pode e deve arranjar soluções para que o mundo seja um melhor para todos sem distinções. Temos de acreditar em nós próprios. No bem que podemos realizar no dia-a-dia. Não é muito complicado, por vezes basta um olhar, uma palavra de apreço, de força, de conivência para que esse outro encara o dia, a vida de forma diferente. E meus amigos são as pequenas coisas que se fazem que podem evitar grandes males. É por isso que acredito que está no Homem a chave de todos os problemas.